Um Belo Verão

Relato com honestidade da relação de amor entre duas mulheres, recriando-se a época da efervescência do movimento feminista em Paris, no início da década de 1970.

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07 de julho de 2016

Na cerimônia de premiação do 66º Festival de Cannes, um filme de temática homossexual foi responsável por um feito histórico na Croisette ― o Júri, presidido por Steven Spielberg, decidiu entregar a Palma de Ouro de Melhor Filme não somente para o cineasta Abdellatif Kechiche, pela direção de “Azul é a Cor Mais Quente” (2013), mas também para as atrizes Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos. A interpretação da dupla, protagonista de tórridas cenas de sexo, talvez frutos dos métodos tirânicos do diretor segundo revelado pelas intérpretes, mostrou-se merecedora de um reconhecimento à altura da singularidade emocional que hipnotizou o público. O filme “A Bela Estação”, de Catherine Corsini, é mais uma cria francesa que relata com honestidade a relação de amor entre duas mulheres. No contexto temporal, recria-se a época da efervescência do movimento feminista em Paris, no início da década de 1970.

Em duas personagens com conceitos diferentes, o romance ergue-se sobre a conhecida máxima da atração dos opostos. Delphine (Izïa Higelin) é uma camponesa dedicada aos serviços braçais na fazenda da família, enquanto Carole (Cécile De France) é uma ativista que luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres. Na intenção de expandir os horizontes restritos pela vida no campo, Delphine viaja para a capital francesa, onde conhece Carole por acaso. As pautas do movimento feminista soam atrativas para Delphine, que passa a frequentar as reuniões das militantes. No entanto, “A Bela Estação” deixa claro que o maior interesse da moça é mesmo Carole, mulher dona de uma personalidade moldada pelo arrojo urbano, um comportamento em completa oposição aos costumes pudicos, de sensações oprimidas, que caracterizam a vida no interior.

O complexo caso de amor entre Carole e Delphine é suficiente para fazer de “A Bela Estação” um filme de discurso profundo, que incita o espectador a uma participação que vai além da observação. Um primeiro e essencial tópico é a inversão de estereótipos gerados por perspectivas preconceituosas. No filme de Corsini, não há vez para o argumento mesquinho, onde é a feminista convicta que conduz a iniciação lésbica da camponesa recatada. Pelo contrário, na relação das duas, impulsionada inclusive por aprendizagem mútua, é Delphine, ciente de seus desejos desde pequena, que desperta em Carole, casada com um homem, a sensação até então desconhecida de se ver apaixonada por alguém do mesmo sexo. Os conflitos começam quando muda o cenário do romance. Diante da saúde cada vez mais frágil do pai, Delphine é obrigada a voltar ao campo para conduzir os afazeres da fazenda. Carole não tem outra opção a não ser acompanhá-la, já que o namoro das duas ultrapassou as proporções de uma aventura. Sob os olhares julgadores dos camponeses, o que inclui a vigilância diária da própria mãe, Delphine mostra sua força na liderança da fazenda, fazendo valer os ideais feministas, mas não consegue livrar seu amor da clandestinidade do quarto trancado, praticado às escondidas. Paradoxo que incomoda Carole, defensora da liberdade como direito primordial. Quando a relação mais íntima das duas é desvelada, o lançamento de pedras motivado pelo conservadorismo cruel é um trauma inevitável. Cabe ao filme, por fim, decidir se o enfrentamento da situação será ou não individual.

Festival do Rio 2015

Panorama do Cinema Mundial

La Belle Saison, França, 2015, 105’

Catherine Corsini

Elenco: Izïa Higelin, Cécile De France


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