‘A bruma assassina’ de John Carpenter desafia o nevoeiro de Londres

Vitrine autoral, o BFI London Film Festival presta um tributo a John Carpenter com uma projeção da versão restaurada do cult de 1980

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02 de outubro de 2018

The Fog John carpenter

Rodrigo Fonseca
Alvo de homenagens em Veneza e Toronto, o artesão mor do sobrenatural, John Carpenter, realizador de “Eles vivem” (1988), vai receber as loas do BFI London Film Festival, uma das maiores vitrines autorais da Europa, cuja edição de nº 62 vai de 10 a 21 de outubro no Reino Unido. No dia 15, na seção Tresures, o Festival de Londres vai projetar a cópia nova, em 4k, de “A bruma assassina” (“The fog”, 1980), produção estimada em US$ 1 milhão que faturou US$ 21 milhões apenas nas bilheterias dos EUA. Jamie Lee Curtis está no elenco da trama, que aborda o pânico que se espalha por uma cidade costeira após a aparição de uma névoa misteriosa no ar, cem anos depois de uma tragédia marítima no mesmo local. Detalhe importante: quem abre o BFI este ano é “As viúvas”, de Steve McQueen, que também vai inaugurar o Festival do Rio, dia 1º de novembro.

Curiosamente, Jamie está na dianteira de um projeto que faz os carpenterianos salivarem: o novo “Halloween”, que estreia no fim do mês (19/10 nos EUA, 24/10 por aqui). Nele, o diretor David Gordon Green traz Jamie Lee Curtis de volta à personagem que Carpenter deu a ela no cult homônimo de 1978, às voltas com o maníaco mascarado Michael Myers. É um duplo reconhecimento ao legado de um mestre do assombro, que já não filma mais, por falta de financiamento. Seu último longa-metragem, “Aterrorizada”, é de 2010. O que ele faz hoje é compor músicas e lançar discos com suas trilhas sonoras e melodias não aproveitadas em filmes, caso do CD “Lost themes” e a trilha do longa de Gordon Green, que entra em cartaz em outubro nos EUA, de carona no Dia das Bruxas. E espera-se que vá ser um dos fenômenos populares de 2018 em venda de ingressos.

“O cinema de horror é político, crítico por natureza, o que exige de seus realizadores a necessidade de se trabalhar de forma independente da vontade dos estúdios”, disse Carpenter em uma entrevista Associação de Críticos do Rio de Janeiro para a feitura do livro “O medo é só começo”, onde faz um balanço de sua carreira. “Filmes como ‘A noite dos mortos-vivos’ só foram possíveis, com toda a excelência que carregam, por terem sido gestados de forma livre. De modo geral, as pessoas têm medo das mesmas coisas: morrer, sofrer… Com a consciência do medo, eu posso trabalhar de modo mais frio, até porque, eu fui parar no terror para poder sobreviver, mas queria mesmo era fazer faroeste. No terror, encontrei um espaço para criar”.

John Carpenter hoje com 70 anos, vive de direitos autorais dos remakes de seus cults e de CDs de trilha sonora

Com a fama de ter um temperamento de indigesto para o padrão das grandes corporações de Hollywood, Carpenter acabou perdendo espaço como diretor depois do fracasso comercial de “Fantasmas de Marte”, em 2001. Seu último sucesso de bilheteria, “Vampiro$”, já contabiliza 20 anos. Porém, seus longas de juventude como “O enigma do outro mundo” (1982) e “Assalto à 13ª DP” (1976) são citados como referência por realizadores do mundo todo, de Quentin Tarantino a Kleber Mendonça Filho. Há uns três anos, versões em quadrinhos de dois de seus maiores êxitos de público. “Os aventureiros do bairro proibido” (1986) e “Fuga de Nova York” (1981) se tornaram best-sellers nos Estados Unidos, desafiando a hegemonia dos heróis da DC e da Marvel na venda de HQs. E toda hora surge um novo remake de seus clássicos.

“Estou velho, cansado de trabalhar, mais interessado em me distrair e em receber os cheques gordos que me pagam para refazer minhas ideias do passado”, disse ele em entrevista ao “The New York Times” no início do ano, antes de ser convidado pelo festival de Veneza. “Não é mau envelhecer com as pessoas te pagando para usar o seu nome em versões requentadas de filmes que me deram muito trabalho no passado”.

Diante de todo o prestígio do realizador de “Eles vivem”, acaba de sair no Brasil uma caixa de DVDs com o melhor de sua obra. O box reúne os longas “Dark Star” (1974), “Alguém me vigia” (1978); e “Trilogia do terror” (1993), além do já citado “Assalto à 13 DP”.

Nicole Kidman em "Destroyer"

Nicole Kidman em “Destroyer”, um dos longas em competição no Reino Unido

Há uma mostra competitiva no BFI, que faz dele um dos festivais de maior prestígio da Europa na atualidade. Concorrem este ano “Pájaros de Verano”, de Cristiana Gallego e Ciro Guerra (Colômbia); “Destroyer”, de Karyn Kusama (EUA); “Lazzaro Felice”, de Alice Rohrwacher (Itália); “In fabric”, de Peter Strickland (Reino Unido); “Shadow”, de Zhang Yimou (China); “Joy”, de Sudabeh Mortezai (Austria); “Tarde para morir joven”, de Dominga Sotomayor (Chile); “Sunset”, de László Nemes (Hungria); “Happy New Year, Colin Burstead”, de Ben Wheatley (Reino Unido); “The old man & the gun”, de David Lowery (EUA), que tem Robert Redford, em vias planos de aposentadoria, como seu protagonista. Nas projeções especiais estão “Peterloo”, do inglês Mike Leigh; “Mirai”, animação do japonês Mamoru Hosoda; e o .doc “Fahrenheit 11/9”, piquete de Michael Moore contra Donald Trump.

Para o Brasil, o BFI reservou espaço para filmes como “Um corpo feminino”, de Thais Fernandes; “O clube dos canibais”, de Guto Parente; “Morto não fala”, de Dennison Ramalho; “Chuva é cantoria na aldeia dos mortos”, de Renée Nada Messora e João Salaviza, uma coprodução com Portugal; “This is bate bola”, rodado por Neirin Jones e Ben Holman em favelas do Rio; e “Sueño Florianópolis”, de Ana Katz, produzido por argentinos e brasileiros, tendo Marco Ricca no elenco. Vencedor da Semana da Crítica de Cannes, “Diamantino”, que tem sangue brasileiro, em seu organismo português, vai tentar sua sorte na capital inglesa também.

Para encerrar suas atividades, o BFI exibe, no dia 21, o esperado “Stan & Ollie”, com John C. Reilly e Steve Coogan encarnando O Gordo e O Magro, sob a direção de Jon S. Baird. Antes do fim, vão ter iguarias como “The ballad of Buster Scruggs”, dos irmãos Coen, e “Suspiria”, de Luca Guadagnino.