A Câmera de Claire

por

09 de outubro de 2017

Veterano e querido dentro da programação do Festival do Rio, Hong Sangsoo, retorna os trabalhos com Isabelle Huppert, em uma despretensiosa obra filmada durante a viagem ao Festival de Cannes em 2016. No filme, Manhee, interpretada graciosamente por Min-hee Kim, é uma vendedora de filmes que acaba de ser demitida por ser considerada desonesta, mesmo que sem motivos aparentes. Enquanto Claire (Isabelle Huppert), é uma professora, poeta e fotógrafa amadora, inserida no filme como alicerce de explicação para toda a relação incompreendida de demissão sofrida por Manhee. É claro que Sangsoo como bom maestro, orquestra as situações entre personagens que até então eram distintos, com bastante sutileza e naturalidade.

233051

A Câmera de Clair (Keul-le-eo-ui ka-me-la) em termos autorais se mantém como uma grande aula de interpretação e improvisação, principalmente nos longos momentos de caminhada e diálogo entre as personagens de Isabelle e Kim, onde aos poucos algumas máscaras caem, enquanto outras se apresentam, como um grande exercício de criação de características, pontos de vista, e convergências culturais existentes entre ocidente e oriente. Esses aspectos influenciam no filme toda a sua elegância e naturalidade nas composições das cenas, resultando em uma deliciosa experiência no desenvolvimento da amizade das personagens principais, com uma Huppert completamente livre e debochada na mise en scène.

Apesar de seguir o mesmo formato de seus filmes anteriores, Sangsoo mesmo sem inovar em A Câmera de Clair, consegue criar uma relação saudável com o público que o admira, apresentando mais um filme aparentemente leve mas que se encarrega discretamente de assuntos bastante particulares como as relações afetivas dentro de um âmbito profissional, questões do ego masculino, a rivalidade entre mulheres, e até de certa forma o desejo de uma emancipação feminina oriental.

Filmado durante o Festival de Cannes de 2016, quando Isabelle e Kim estavam na cidade pra promover Elle e A Criada, a nova obra de Sangsoo, – foi lançado recentemente também, Na Praia à Noite Sozinha  – mostra novamente seu interesse e facilidade em produzir na garra, com quase nenhuma estrutura e equipe reduzida, de forma totalmente não convencional, resultando em seu cinema tão particular e que sem dúvida o difere em ser um dos diretores-autores mais interessantes dos anos atuais.