A Casa de Lucia

Como se fazer um filme sobre refugiados aproximando os países, ao invés de afastando sujeito e objeto de estudo.

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10 de junho de 2017

“A Casa de Lucia” de João Marcelo e Lucia Luz, longa da Mostra Competitiva Outros Olhares, que teve sua estreia mundial no 6º Olhar de Cinema em Curitiba, é um interessante relato intimista e testemunhal da codiretora que dá nome ao filme sobre sua condição de refugiada no Brasil, tanto quanto é ao mesmo tempo uma curiosa triangulação entre três diferentes países e culturas que podem estar muito mais próximos como enfoque humano do que seus problemas podem aparentar. Nascida no Kuwait, estudou e casou na Síria, de onde teve de emigrar após os conflitos armados destruírem sua bela cidade e a universidade onde estudava.

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Com uma narrativa moderna, quase toda construída a partir de vídeos na webcam ou em selfie de celular, acompanhamos o registro de viagem para visitar sua família no Kuwait, pela primeira vez em três anos, desde que teve de se refugiar no Brasil. E é aqui que entra o diferencial metalinguístico de se ter dois diretores na batuta do filme, gerando um novo interesse de linguagem para o espectador: em parte a própria Lucia se autodirige no controle de seu celular ou do computador por onde se filma, e em parte ouvimos no máximo a voz do codiretor João Marcelo direcionando às vezes uma coisa e outra, ou estimulando a documentada a se abrir em algum momento difícil…sem jamais precisar entrar fisicamente em cena.

A parte cinematográfica se torna decerto mais curiosa com esta dicotomia pela dialética de forças conjuradas pra cada sequência, claro, também pensadas de acordo com que a espontaneidade e/ou a montagem auxiliam a cadência cênica. Como, por exemplo, quando Lucia e a família visitam um shopping no Kuwait e filmam uma manifestação humanitária de caridade aos refugiados sírios presentes no país, que coincidentemente estava acontecendo naquele instante. E, por outro lado, é o que possibilita o crescimento para além dos relatos extremamente intimistas que podiam ficar apenas na ordem da performance confessional, e faz uma triangulação do indivíduo com a sociedade em relação à diáspora de ser forçado a sair do seu lar por conflitos maiores que você. Uma viagem prática e teórica entre a Síria, o Kuwait e de volta ao Brasil mostrando que, para além do auxílio humanitário ante situações extremadas, há um lado amoroso para com os três países citados que sempre valerá ser salvo ou pelo qual se vale lutar.

Olhar justo e que valoriza o resgate do que se perdeu, mesmo na identificação do outro e do comum dentro do espelhamento no estrangeiro. Exemplo disso é quando, mesmo agradecida pelo restante de sua família estar a salvo no Kuwait, Lucia denuncia algumas proibições e censuras como não se poder fazer churrasco no prédio, senão os vizinhos podem denunciá-lo para a polícia. Ou quando já de volta ao Brasil ela revela não usar o relicário de ouro com sua foto e a do marido porque tem medo de ser roubada andando na rua. Cada país possui seu calcanhar de Aquiles, e foi por isso mesmo o interesse de João Marcelo em ter escolhido contar a história de Lucia neste filme, quando a conheceu na faculdade que ambos estudavam. Justamente porque ela se tornou a primeira aluna de intercâmbio aceita em um programa de auxílio humanitário no Paraná, e foi assim que criaram juntos a linguagem do filme, para desmistificar o preconceito contra países em guerra, pois não há maior vontade de uma pessoa que foi obrigada a se refugiar em outra nação do que voltar e reconstruir sua terra

De quebra, “A Casa de Lucia” ainda consegue ensinar o malfadado filme “Vangelo” (longa da Mostra Competitiva principal) como de fato se faz um documentário sobre imigrantes e refugiados, dando o foco para a voz de quem realmente importa ali: a deles próprios.

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6° Olhar de Cinema em Curitiba

A Casa de Lucia (Idem)

Brasil, 70 min. Livre

De João Marcelo e Lucia Luz

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