A Casa Dividida (42ª Mostra de SP)

Filme chinfrim

por

19 de outubro de 2018

Com uma sinopse muito bem escrita e atinada com os tempos em que estamos vivendo, este “A Casa Dividida” de Eugene Kotlyarenko (de origem russa, mas naturalizado americano) atraiu muita gente para arriscar este filme na 42ª Mostra de São Paulo como um tiro no escuro. A sinopse falava de um casal dividido não apenas por seu momento amoroso desgastado, mas como pelas diferenças ideológicas de seu país, pois retrata o casal no período das eleições de Donald Trump contra Hillary Clinton; uma disputa presidencial americana entre republicanos radicais contra democratas moderados — algo similar ao que estamos vivendo no Brasil no momento entre a direita e esquerda. Porém, passada esta analogia inicial, que apenas é trabalhada de fato em uns dois momentos do filme, o que resta é o esfacelamento de um casal sem empatia para a telona e cujas motivações acabam parecendo tão superficiais quanto a defesa de seus direitos.

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O filme, assim como o título, se divide em duas espinhas dorsais: a primeira retratando a rotina do namorado após a decisão do casal em dividir o apartamento durante o apartamento, um dia exclusivamente para cada um, valendo ressaltar aqui que eles já possuíam um relacionamento aberto. Na outra metade, o foco fica com a namorada, um pouco mais consistente na proposta da linguagem cinematográfica, porém quase igualmente tão vazia quanto.

O diretor é também o protagonista, e quem começa o filme guiando o espectador através do marasmo de uma rotina exclusivamente voltada para o tinder, para o encontro casual com mulheres desconhecidas… E, por mais que somente uma delas até agregue um pouco à história (a personagem da dominatrix), o capítulo como um todo é sofrível, com um personagem que força situações engraçadas que não fazem rir, seja na frente da câmera como intérprete, seja atrás dela como diretor. Apenas na segunda metade guiada pela personagem da namorada Dasha Nekrasova é que o filme ainda tenta respirar para além do roteiro moribundo, mas tudo fica muito na superfície, não aprofundando nem o seu novo namorado indiano que se identifica como minoria, mas vota em Trump por reproduzir assumidamente a mentalidade da hegemonia branca americana. Sem falar em ângulos de câmera muito mal idealizados, problemas de montagem e continuidade, além de perda de ritmo e de estilo (como os charmosos crédito iniciais que são abandonados). Pena, potencial desperdiçado.