A Casa Lobo

O medo como instinto

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20 de abril de 2020

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Quando pequenos, um dos primeiros sentimentos do qual nos recordamos é o medo. Essa sensação impele diversas ações não apenas na primeira idade, mas em toda nossa jornada pela vida. Seja o medo de rejeição, tão proeminente em nossa adolescência, que basicamente dita nosso comportamento, nossa vestimenta e nossas relações; seja o medo de mudança, ao hesitarmos quando precisamos nos adaptar a situações diferentes daquelas que esperávamos; e, porque não, o medo da própria morte, quando a finitude de nossa existência, por qualquer que seja o motivo, nos vem à mente.

Por mais que acreditemos, na idade adulta, estarmos aquém de determinados temores, a verdade é que apenas nos tornamos melhores em controlá-los. Isto porque o medo não é algo compreensível e, na realidade, sequer podemos dizer se tratar de um sentimento, ou mesmo uma emoção. O medo real é instintivo, necessário à sobrevivência e não precisa possuir qualquer senso de razão.

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A Casa Lobo, primeiro longa-metragem de Joaquín Cociña e Cristóbal León, é um dos lançamentos mais interessantes dos últimos anos. Na história, acompanhamos a fuga de María (Amalia Kassai) da Colonia Dignidad, no Chile, após ser ameaçada de punição por deixar três porcos escaparem. Na floresta, escapa de um lobo (Rainer Krause) que a perseguia e encontra refúgio em uma casa abandonada, na qual se encontram dois porcos, os quais promete que não irá comer.

O meio pelo qual a dupla escolheu expressar a narrativa atrai atenção: trata-se de uma animação stop motion. Não é, porém, um trabalho simplista, muito pelo contrário. Cociña e León trabalham com interações de elementos 2D com 3D, ao mesmo tempo em que constantemente desconstroem e reconstroem os modelos, tudo filmado de modo a dar a impressão de um take contínuo.

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Dessa forma, em determinada cena, o corpo de María se desconstrói, de modo a servir de enchimento à poltrona na qual estava sentada, apenas para, posteriormente, acompanharmos a completa “reforma” da residência, com a sua imagem sendo incorporada à parede e, eventualmente, ressurgir em cena. Os materiais utilizados variam desde marionetes até fita crepe e papel machê, criando diversas texturas distintas, belas e, ao mesmo tempo, perturbadoras. Nesse sentido, o terror funciona de maneira instintiva porque, ainda que não haja, em tela, qualquer elemento que racionalmente associemos ao medo, é impossível assistir à obra sem se sentir desconfortável frente à constante construção/desconstrução dos elementos mostrados.

A realidade é que seria difícil expressar em palavras não apenas as conquistas de Cociña e León no longa, porém, mais importante, as emoções que as imagens transmitem. É impossível não sentir fascínio com o projeto, tendo em vista não apenas a clara paixão dos responsáveis, e sim também o alto grau de sucesso na empreitada. Filmes animados do gênero de terror são raros e, aqui, temos um dos melhores exemplares recentes.

Utilizam-se, também, do som para aumentar a atmosfera de estranheza da obra. O tom de voz da protagonista insere, no espectador, uma preocupação irracional, que é aumentada com a frequente alteração de perspectiva da câmera que, por vezes, insere a audiência na história, ao alterar o ponto de vista para a primeira pessoa. Assim, qualquer suspiro e sussurro dado por María acelera nosso coração, como se o perigo fosse iminente não apenas à personagem, mas a nós.

Porém, Cociña e León não se contentaram em cunhar, talvez, a epítome do que o stop motion tem a oferecer, uma vez que A Casa Lobo não se trata apenas de um filme de arte. Ao contrário, há, aqui, um denso roteiro acerca de um terrível período vivido pelos chilenos. Isto porque, como se sabe hoje, a Colonia Dignidad, fundada em 1961, nada mais era que uma seita alemã de cunho nazista, comandada por Paul Schäfer, que fugiu de seu país para escapar de acusações referentes à pedofilia. Dessa forma, a colônia era local de todo tipo de abusos, incluindo infantil e, eventualmente, inclusive, serviu como campo de extermínio para dissidentes do regime ditatorial de Augusto Pinochet.

De tal maneira, dialoga com os fatos por trás da história de modo a prover contexto o bastante àqueles que a conhecem. Explica-se, então, que Schäfer era conhecido por utilizar a palavra “porco” como ofensa aqueles que punia. Assim, as circunstâncias nas quais María é ameaçada de punição – por perder três “porcos” – ganham novos contornos. Os próprios porcos na residência levantam novas interpretações, sobretudo após a sua surreal e fantástica transformação em pessoas. Dessa maneira, a interpretação metafórica entre o real e o imaginário permeia toda a narrativa.

Tem-se, então, outro fator interessante de A Casa Lobo: o jeito como trabalha o fantástico no roteiro. Isto porque a dupla optou por mesclar a realidade a elementos que nos remetem a contos de fadas. De tal modo, a clara alegoria que o conto possui com Os Três Porquinhos, por exemplo, acaba por trazer perspectivas interessantes dos personagens em tela.

Sendo assim, Cociña e León conseguem trazer ao presente lembranças de um passado doloroso. Em seus 73 minutos de duração não há um momento desprovido de suspense, graças ao empenho da dupla de diretores em cunhar uma história intimista, mas que, ao mesmo tempo, dialoga com fatores gerais do mundo exterior. Além do stop motion, construído por meio de técnica impecável, a narrativa evoca um sentimento instintivo de medo, mas não de uma maneira ruim, muito pelo contrário. Dessa forma, se um dos objetivos primordiais de um longa metragem é a conexão emocional com o espectador, é mais do que justo dizer que A Casa Lobo cumpre, com folga, a sua função.

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*Esta é a 2ª crítica publicada sobre este filmaço. Quem quiser dialogar com outro ponto de vista e cruzar referências, segue o texto publicado na época do VII Olhar de Cinema em Festival Internacional de Cinema em Curitiba, por Filippo Pitanga:

http://almanaquevirtual.com.br/vii-olhar-de-cinema-a-casa-lobo/

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Avaliação Iuri Souza

Nota 5