A Casa que Jack Construiu (42° Mostra de SP)

Qual o limite da estilização do horror?

por

20 de outubro de 2018

Talvez este crítico não tenha mais a mesma paciência de como antes para os filmes do famigerado cineasta dinamarquês Lars Von Trier… Afinal, temos horrores ainda maiores para resolver na vida real hoje em dia, ao invés de nos preocuparmos com as polêmicas que Lars gosta de se ocupar sadicamente em nome de abstrair ou refletir sobre esta mesma realidade. Talvez os pesadelos que ele tanto gosta de infligir na telona tenham ficado pequenos diante da atualidade. Porém, admito certo prazer culposo em gostar (às vezes amar) alguns de seus filmes, como “Dogville” e “Melancolia”…

Então, eis que Lars chega com seu novo “A Casa que Jack Construiu” (“The House That Jack Built”) na tentativa de superar tudo o que já fez antes. Chocar ainda mais, justamente como reflexo de ter se tornado um provocador menos significante do que os desafios presentes que já estão postos fora da tela. E, mesmo que o impacto já alardeado no Festival de Cannes deste ano tenha amortizado e gerado o efeito reverso em relação a seu filme, talvez afastando um pouco o espectador já treinado em seus truques, uma imagem, um frame específico do filme havia me despertado o interesse de assistir esta nova obra — mesmo contrário ao meu feeling interno. A imagem (vide abaixo) imitava a travessia da barca que atravessa os rios de corpos no Inferno, como descrito em livros como “Eneida” de Virgílio e “A Divina Comédia” de Dante Alighieri — o que de fato Lars, como um experiente diretor, consegue reproduzir pictoriamente muito bem com os recursos do cinema.

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Ok. Uma imagem incrível. Ao mesmo tempo um pouco de um spoiler…, mas que está sendo divulgado e publicado a torto e a direito em toda a mídia. A imagem é boa demais para ser desperdiçada como publicidade. E isso já revela muito sobre a referência do filme, os infernos como descritos por ambos autores já citados aqui, Virgílio e Dante. Esta, na verdade, é a melhor parte deste longa-metragem. O problema é que permanece como subtexto por tempo demais do filme, enquanto transcorrem crueldades explícitas e de certa forma desnecessárias de fazer o estômago revirar…

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Aliás, por isso mesmo, falar sobre o filme é difícil. Melhor escrever, já que palavras escritas vêm sem tom, são mais planas e diretas. Gostaria até de dizer que é um filme desnecessário…no entanto, ao escrever sobre ele, sou obrigado a admitir que o mesmo vem a se costurar artisticamente de uma forma que, apesar da petulância e enorme prepotência emanadas de seu diretor, consegue fazer sentido numa catarse metalinguística. Mesmo com e justamente por causa das polêmicas do próprio Lars no extracampo de sua filmografia nestes últimos anos… Mais especificamente falando de sua lastimável declaração em Cannes há alguns anos atrás, quando disse que “entendia Hitler” e, com isso, alcançou a rara proeza de ser banido do Festival — não obstante aparentemente ter se explicado: como tendo feito uma ironia crítica ao momento histórico conturbado, o qual constrói seu próprio Hitler de tempos em tempos… — No final, o polemicista e provocador Lars Von Trier acabou sendo perdoado e voltou a aparecer na Croisette em 2018 precisamente com este “A Casa que Jack Construiu”, parecendo até que ele fez este filme especificamente para os críticos que não gostam dele. Uma carta de amor macabra e sórdida para gerar repulsa intencional nas mesmas pessoas que o atacam e não resistem a assistir seus filmes — nem que seja para reclamar.

O problema não é o filme em si, e sim que a forma como Lars o faz é completamente desnecessária, forçando o espectador a uma sessão longa e excruciante de sadismo puro e misoginia injustificável (desperdiçando ótimas atrizes para apenas poder matá-las de formas horríveis, com exceção de Uma Thurman, que subverte seu papel e está ótima)… mesmo que o próprio Lars critique esta postura depois. A admissão de ironia está toda lá — do tipo que quase zomba do espectador que se sentir ofendido com tanta tortura e ódio especialmente dirigido às vítimas mulheres, como se “este espectador pudesse não estar entendendo a crítica e denúncia que o filme faz justamente a este tipo de violência”. — Contudo, é com tanto deleite que Lars exerce o poder de sua estética fascinante em cima do sadismo resultante que é impossível não ser igualmente irresponsável com o uso da imagem ao mesmo tempo que ele queira ser crítico. E não apenas com o uso da imagem uma vez…como duas, três, e tantas vezes quanto forem necessárias ele repetí-las. O espectador nem precisará esperar muito pela tortura, pois não há aqui sutileza ou implícito, apesar de haver sim uma construção de suspense eficiente através de diálogos meio Tarantinianos sobre banalidades, antes de toda a violência e “gore” serem expostos, e depois repetidos ad nauseam.

Há todo tipo de tortura, dentro e fora da tela. Morais e imorais… Em estado crescente e divididas em capítulos. Tanto que cada capítulo se dispõe enumerando o que o próprio protagonista interpretado por Matt Dillon (famoso na década de 80 por clássicos como “O Selvagem da Motocicleta” e ressuscitado para as novas gerações por seu ar canastra em “Quem Vai Ficar com Mary” e “Garotas Selvagens”, e no novo milênio com o oscarizado “Crash”) chama como “Incidentes Aleatórios”, conforme seu personagem é introduzido e apresentado. Von Trier ama usar analogias e parábolas filosóficas de forma inteligente ou esperta nos intervalos de seus capítulos (em todos os seus filmes, por sinal). Só que chamar os segmentos de “Incidentes Aleatórios” é tanto enganar o espectador quanto mentir para si mesmo. Não são incidentes se o personagem possui a intenção de agir como irá descrever (com exceção do primeiro capítulo que realmente é mais dado ao acaso); e muito menos são aleatórios, já que cada momento de sua vida que ele escolheu para relatar a um interlocutor a princípio invisível (Bruno Ganz de “A Queda! As últimas horas de Hitler”), que serve como voz da consciência (mais do espectador do que do protagonista amoral), vem a se encaixar perfeitamente na lógica com que quer legitimar seu show dos horrores como se fosse uma benção divina.

Outra questão é mais uma vez admitida pelo diretor quando insere cenas de outros dos seus filmes, como se quisesse revalidar todas as coisas que já foi acusado de fazer com suas obras e tentar usar “A Casa que Jack Construiu” como ponto de encontro. E nesta parte da projeção a narração do diálogo entre o protagonista e seu interlocutor debate sobre os significados da alma e do corpo, sendo o primeiro o símbolo de pureza e o segundo onde exorcizamos nossos piores anseios para não ter de contaminar a alma. Por isso a matéria enfrenta a putrefação, porque o verdadeiro valor sobrevém ao corpo, e por isso seus filmes seriam a matéria com qual purifica suas ideias para não ter de materializar seus pesadelos na vida real. Por isso Lars diz que o artista deve ser cínico e não se importar com seu público quando faz sua obra, e por isso deve destruir o que foi construído, porque tanto quanto temos ícones como obras de arte (e nesta hora aparecem na tela imagens de Hitler a Mao e a Stalin e etc), deveríamos destruir esses ícones para renovar a arte, segundo Von Trier. Muito bem filosofado, mas as palavras não correspondem à imagem, já que seu próprio filme dispensa a ótima oportunidade de desconstruir a matéria de si mesmo, e edifica a si próprio de forma ainda mais icônica — o que é uma contradição e esvaziamento da filosofia que propõe.

Apesar de não poder negligenciar que Lars seja um baita esteta… igualmente não podemos ser condescendentes com o quanto e até onde se pode banalizar a estetização e estilização da violência e do horror. E o cineasta passa por cima disso como se fosse imune à crítica que seu filme faz. Pena, porque desperdiça a oportunidade de pegar um talento real em usar os mecanismos cinematográficos para deixar de zombar e provocar e simplesmente fazer um filme. Ponto.