A Casa

Crítica à sociedade de aparências

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15 de abril de 2020

A-Casa-Netflix

O quão longe você iria para manter seu status social dentro de nossa sociedade de aparências? Essa é a premissa de “A Casa”, filme espanhol que estreou recentemente na Netflix.

Na trama dirigida por David e Àlex Pastor, Javier Muñoz (Javier Gutierrez) é um publicitário renomado, que aos poucos foi se tornando obsoleto e perdendo a relevância no mercado. Sem conseguir manter sua suntuosa residência, se viu obrigado a mudar-se com sua família para o antigo e modesto apartamento em que já moraram um dia. Mas pouco a pouco, a obsessão por recuperar seu status cresce na medida em que encontra uma cópia das chaves de seu ex palacete, e passa a espionar a vida de Tomás (Mario Casas), seu atual residente.

Não há nenhuma novidade no enredo de “A Casa”. Seja em clássicos como “Janela Indiscreta” (do mestre Alfred Hitchcock) a reality shows como o BBB, nossa obsessão por espionar a vida alheia sempre se fez presente na arte. A força do longa, portanto, consiste em seu acabamento e na crítica à nossa sociedade de aparências.

A fotografia de “A Casa” é primorosa e faz um bom trabalho em manter o suspense do filme. Em uma cena desprovida de cortes, observamos um carro bater contra uma parede de concreto. Essa abordagem corajosa e dispendiosa aumenta o impacto e eleva o suspense do filme a uma escala mais realista, em que o espectador passa a de fato temer pela integridade do ator em cena.

O contraste entre as duas moradias apresentadas em “A Casa” trabalha em favor da crítica construída pelo filme. Assim como no vencedor do Oscar 2020 “Parasita”, “A Casa” possui dois palcos principais para contar sua história: a residência da família rica, e a da menos abastada.

As cenas da casa de Tomás (e antiga residência de Javier) são todas em planos abertos, repletos de iluminação natural, que enaltecem o ambiente e realçam a grandeza do local. Já o novo espaço em que Javier habita com sua família é enclausurante, e sua iluminação fica a cargo de poucas fontes artificiais. Os planos fechados no ambiente mal iluminado transmitem a sensação de prisão na qual o protagonista se encontra.

Javier é um reflexo do discurso da meritocracia. Após décadas de trabalho duro, galgou uma posição de prestígio e status na alta sociedade. Como então após toda a sua dedicação e esforço ousam lhe tirar tudo o que foi conquistado? Ele não mereceu tudo isso?

“A Casa” critica de forma extrema o comportamento das classes mais altas que se recusam a diminuir seus privilégios, não importando as consequências. Em uma série de desafios morais (alguns pesados e enojantes), Javier é forçado a olhar para todas as escolhas que é capaz de tomar para manter seu status. O protagonista demonstra de forma crua a flexibilidade moral que atingimos para mantermos nossos benefícios.

A vontade de Javier em manter seu prestígio é reforçada pela sociedade de aparências em que vive. Em um mundo cuja posição das pessoas é definida pelo seu sucesso profissional, um indivíduo que possui saúde, dinheiro o suficiente para ter uma casa (ainda que modesta) e uma família amorosa ainda se sente como um fracasso. O poder (e consequentemente, o seu valor), afinal, só vem do status.

Ao mesmo tempo em que a atuação de Javier Gutierrez é um dos pontos fortes do filme, o protagonista é um dos seus principais problemas. Javier é intragável, e sua inescrupulosidade beira a psicopatia. Como resultado, o espectador se distancia do personagem. Isso acaba enfraquecendo a crítica que o longa se propõe a fazer, já que o público perde a empatia pelo protagonista, passando a ter dificuldades em embarcar nas suas escolhas.

“A Casa” não possui nenhuma inovação de tema ou de construção narrativa, mas acerta nas reflexões que pretende trazer à luz do público. Afinal, em tempos de isolamento social, nunca foi tão urgente para a elite manter os privilégios de se exilar em uma residência espaçosa, arejada e bem iluminada por raios de sol.