A Cidade Onde Envelheço

Permanência-viajante

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20 de março de 2017

Em determinada cena do filme “A Cidade Onde Envelheço” de Marília Rocha, uma das protagonistas portuguesas que estão vivendo em Belo Horizonte no Brasil decide mudar a estação de rádio que está ouvindo com seus colegas após o expediente, no restaurante fechado onde trabalham. Estava tocando, ironicamente, um fado português lamurioso, que era a última coisa que a portuguesa queria escutar, colocando uma música agitada com a qual levanta todos para dançar. E esta simples cena sobre mudança de ritmos diz muito sobre o filme e a dinâmica que valoriza a narrativa sobre comunicação e deslocamentos no espaço-tempo.

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Multipremiado no último Festival de Brasília (2016), “A Cidade Onde Envelheço” ganhou melhor filme, melhor direção para Marília, melhor atriz dividido entre as duas protagonistas e melhor ator coadjuvante. Eis que este filme bastante composto por mulheres, na direção, no roteiro e atuação, é antes de tudo uma obra sobre a dicotomia entre movimento e permanência, e vai além-gênero, criando uma identificação com o lugar de fala que qualquer pessoa pode sentir em terras estrangeiras, ou mesmo de reencontro com o próprio estrangeiro dentro de si, com o olhar sobre o novo. Aí sim se revela a importância de serem duas protagonistas mulheres, um espelhamento da ambivalência descrita acima, dos ritmos, movimentos e inércia. As atrizes portuguesas Francisca Manuel e Elizabete Francisca Santos possuem mais semelhanças em suas diferenças do que meramente a coincidência do nome compartilhado: há um claro estudo de corpos e treino de câmera para a espontaneidade com que elas se entrelaçam. A primeira já estava morando no Brasil há um tempo e a segunda acaba de chegar, ambas amigas de infância que não se viam em anos, e não apenas devem resgatar a intimidade como talvez ajudar uma à outra a ver tudo sob novas perspectivas.

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O filme é basicamente sobre isso: permanecer ou voltar para Portugal? Consegue uma pessoa viver apenas da visão de ser turista, sempre um estranho, ou haveria um ponto em que qualquer lugar do mundo pode se tornar nosso lar, permitindo-se ser assimilado pela cultura ao redor, e isto bastaria? Mas não haveria um equilíbrio entre os dois fatores, entre sempre manter um estranhamento do novo dentro de si ao mesmo tempo em que o ‘velho’, já vivenciado, dá conforto e segurança? Esta é mais uma vantagem de se ter duas atrizes muito bem entrosadas cenicamente a parecerem naturais e complementares, pois caso fosse dois homens no lugar delas, talvez o clichê arquetípico da associação masculina com o conflito e a disputa com seu semelhante poderia justamente afastar o espectador destas questões mais metafísicas, que a sororidade das mulheres aproxima na telona.

E nisto as duas Franciscas merecem justificadamente o prêmio que compartilharam. Tendo Francisca Manuel sido a primeira convidada para o projeto de Marília, diretora e atriz colaboraram muito com o roteiro, pois Francisca realmente estava morando há algum tempo no Brasil e a cineasta por sua vez estava morando em Portugal. Deixaram, assim, espaços de construção recíproca, possivelmente por isso influenciando que este se tornasse o primeiro longa-metragem de ficção da experiente documentarista Marília Rocha.

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Voltando a falar do trabalho de expressão de corpos do filme, impressiona a forma com qual individualizaram as semelhanças e diferenças das duas personagens para potencializar a catarse do deslocamento de identidade no tempo e espaço. Inclusive e especialmente pela música, como quando a personagem mais minuciosa e reflexiva de Francisca Manuel se despede do namorado, ao som da magistral música “Soluços” de Jards Macalé, com as cadeiras e pernas entrelaçadas sob a vista da janela pra cidade, num sentimento à flor da pele. E Elizabete Francisca não fica atrás, com sua personagem espoleta, mais dinâmica e ininterrupta, cujo carisma transbordante faz o contraponto com a placidez mais poética da melhor amiga. Que delicadeza bem bolada em planos que seguem metodicamente as diferentes velocidades de ambas. Parecem dois filmes, duas cidades, duas lembranças que se opõem em harmonia para aproximar dois países eternamente casados e separados que são Brasil-Portugal.

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É curioso de se pensar na distribuição mundial deste amálgama de produção luso-brasileira. Uma harmonia entre dois continentes e duas histórias culturais que, apesar de entrelaçadas, são bastante diferentes. E no filme é possível se ver a catarse alcançada ao vivo com sentimentos ainda mais próximos a ambos os polos continentais em conjunto do que se estivessem separados. E ainda assim são sensações tão universais que o encantamento é mútuo para qualquer um que assista em qualquer lugar do mundo, caso se identifique com a dicotomia da permanência-viajante.