A comédia do espanto

Sem medo de ser pop, 'Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro' dá um olé na correção política e leva às telas uma mistura 'gore' de humor e horror que impressiona pelo domínio de cartilhas de gênero

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23 de novembro de 2018

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Rodrigo Fonseca
Poucos filmes são tão sintomáticos desta fase histórica de bolsos vazios no Brasil quanto o banho de descarrego pop chamado “Os Exterminadores do Além contra a Loira do Banheiro”, em cartaz a partir do dia 29 de novembro. Divertido do início ao fim, o longa-metragem de Fabrício Bittar sabe ser escatológico na medida certa, consegue ser cínico (com açúcar e com afeto) como o politicamente incorreto requer e se lambuza no pop sem medo de ser (e de fazer o próximo) feliz. Preciso como comédia, ele é mais acertado ainda como espetáculo gore, o termo que designa o terror explícito. E seu grafismo de sangue + tripas não é descerebrado: é um sinal dos tempos. Nosso tempo… de sangria na economia.

Épocas de crise $$ são épocas de filmes de terror nas telas: 1929, com o crack da Bolsa de Nova York, abriu a caixa de Pandora que nos deu todos os monstros da Universal Pictures (“Dracula”, com Bela Lugosi; “A múmia”, com Boris Karloff), e, de quebra, ainda soltou da prisão os gângsteres do cinemão noir, como o Scarface que cicatrizou Paul Muni em nosso imaginário. Na década de 1970, a instabilidade econômica mundial ligada ao escândalo da Era Nixon – regada pelo vazamento de “ouro negro” nos conflitos financeiros  da Organização dos Países Exportadores de Petróleo do Oriente, a Opep – nos trouxe Pazuzu, o inimigo de Max von Sydow em “O exorcista” (1973) e nos garantiu um date com Carrie, a estranha de Brian De Palma. No fim dos anos 1990, a bolha da internet – que, numa promessa de milhões, furou-se na frustração de um projeto de autossustentabilidade – gerou uma onda fresca de horror teen, ventilada à força de “Pânico” (1996) e “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado” (1997). É só o mundo falir para o Grand Guignol (nome dado a um filão teatral de espetáculos de mundo cão, dedicado às massas) entrar em cena. É por esta razão que, nestes dias de arrocho global, de garrote comercial na administração Trump, vimo “A forma da água”, um filme de monstro ganhar um balde de Oscar. É por isso que vivemos uma corrida multinacional pela afirmação de um “neoterror”, ou de um terror regional: temos joias como “As boas maneiras” e “Animal cordial” no Brasil; “Verónica”, na Espanha; “Grave” na França.

Mas… do nada… de onde só se esperava quaquaquá… surge “Os Exterminadores do Além contra a Loira do Banheiro”, que se impõe pelo abuso e pela urdidura formal de excelência.

Pietra Quintela é a Loura do Banheiro

Pietra Quintela dá medo (de verdade) como a Loura do Banheiro

Pilotado por Fabrício Bittar com um domínio invejável da linguagem clipada da Hollywood dos anos 1980, “Os Exterminadores do Além contra a Loira do Banheiro” dá seguimento a uma linha de “comédia torta”. Linha moralmente corajosa no desafio às convenções sociais dos dias atuais, que extrapola os ditames das neochanchadas: o rentável filão da crônica de costume. Essa tal linha foi inaugurada pelo próprio Bittar, em parceria com o (bom) ator Danilo Gentili em “Como se tornar o pior aluno da escola” (2017), produção deliciosamente perversa em seu olhar sobre o ethos estudantil que vendeu cerca de meio milhão de ingressos sob a chibata da crítica. Confundem-se as posições politicas pessoais de Gentili com seu trabalho prático, o que leva, em geral, a um ódio institucionalizado ao que ele produz na televisão e fora dela. Deixe as posições política dele com ele e se concentre na estética: avaliando-se o que ele faz, na telona, sem Marx e sem Roberto Campos, sem Engels mas também sem Olavo de Carvalho, o que sobra é um popstar de exemplar poder de comunicabilidade, capaz de levar seu potencial provocativo ao cinema para oxigenar o filão humorístico pela inteligência da provocação. Essa inteligência somada ao domínio narrativo de Bittar e potencializada por um elenco de carisma latente (Dani Calabresa, Léo Lins e Murilo Couto) só pode render um sólido experimento audiovisual. Experimento esse que vitamina não apenas as veredas cômicas de nossa produção audiovisual como vitamina nossa gramática de terror. É uma reflexão sobre o bullying e o que ele gera de sequela.

Num timbre de tensão à la “Zumbilândia” (2009), “Os Exterminadores do Além contra a Loira do Banheiro” tira sarro da cultura dos youtubers e dos reality shows ao narrar as peripécias de um time de caçadores de fantasmas num Brasil de crendices e do culto ao jeitinho 171 de agir: Caroline (Dani Calabresa), Túlio (Murilo Couto), Fred (Léo Lins) e Jack (Gentili) filmam caças a possíveis encostos. Um colégio chamado Isaac Newton é quizilado por um espírito zombeteiro de verdade: a Loura do Banheiro (encarnada em Pietra Quintela). Com chance de embolsar R$ 1,5 mil, os quatro embarcam numa luta para provar que a Loura é mera lenda urbana. Mas como o Umbral apronta das suas, o Mal deita e rola em meio às atividades do quarteto, o que rende cenas hilárias (como a luta contra um feto assombrado), mas também gera assombro. E assombro de qualidade.

Digão Ribeiro é um dos destaques do elenco deste terrir

Digão Ribeiro é um dos destaques do elenco deste terrir

Fabrício administra com sabedoria o protagonismo de seus quatro atores principais: há deixa pra todos brilharem. Gentili não vive Gentili: ele torna Jack um personagem tridimensional, tosco, mas adorável. Há um quinto destaque para o (ótimo) Digão Ribeiro, que rouba a cena sob o uniforme do segurança Conan. Fora ele, há divertidas participações especiais, da quais a de Carlos Massa, o Ratinho, é a melhor: ele faz um açougueiro grosseirão que aluga um apê para os Exterminadores. Sua presença desenfreia uma série de gargalhadas provocadas mais pela tônica ácida dos diálogos do que pela persona do apresentador. Não é o Ratinho que vemos, mas sim um personagem independente, rico, engraçado. Este é um dos muitos méritos do longa: desmitificar as personas de seus astros.

Se der certo na bilheteria, “Os Exterminadores do Além contra a Loira do Banheiro” pode nos curar de muitas neuroses – goste-se ou não disso. A maior (e pior) dessas neuroses é o pudor institucionalizado que temos contra o pop e seu lugar na história da cultura. Fabrício nos dá um filme (bom) com citações a “Chaves”, a “Caverna do Dragão”, aos filmes da Marvel. E que mal há nisso?  Que venha a parte dois.

Ó… tem cenas pós-créditos: não perca.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5