A Comunidade

A coletividade criticamente pelo ponto de vista de seus indivíduos, como metáfora de todas as formas de governo

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22 de setembro de 2016

Para todos os cinéfilos que aguardavam ansiosamente por um próximo trabalho em que o diretor dinamarquês Thomas Vinterberg voltasse a se aprofundar em temas como os de seu paradigmático “A Caça”, e se decepcionaram com o último “Longe deste Insensato Mundo”, este novo “A Comunidade” não decepciona.

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Claro, uma leitura mais reflexiva do filme anterior, adaptação de romance clássico do século XIX, demonstra que a intenção do cineasta não havia se distanciado tanto assim do cerne de sua filmografia, abordando hierarquias sociais, discriminação e quebra de arquétipos familiares, mas “A Comunidade” segura as rédeas do drama e retoma uma narrativa tensa mais propícia para dissecar seus personagens do avesso. E este trabalho se dá principalmente através do casal principal, na pele de Ulrich Thomsen e Trine Dyrholm, que se muda junto com a filha para o casarão herdado pelo pai, só que, para manter seu altíssimo custo, convidam vários amigos para morarem juntos.

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Apesar de a história aludir à gostosa comédia-dramática “E Se Vivêssemos Todos Juntos” com a diva Jane Fonda, este filme intenciona mais capturar o espírito de uma comunidade hippie da década de 70, com uma inteligente analogia de traçar paralelos com construções de governo e poder na autogerência de uma sociedade calcada nas próprias regras. Nisto, se aproxima muito mais da obra literária clássica “O Senhor das Moscas”, onde um navio naufraga deixando unicamente jovens sobreviventes em uma ilha deserta, a criarem suas próprias leis intuitivamente, desde a lei da sobrevivência do mais forte, a construções mais elaboradas de organização social.

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Cada parte do filme passa por democracia, anarquia, autocracia, ditadura etc, para demonstrar que o ser humano naturalmente procura formas de se administrar, mesmo alheio ao mundo de fora, como se aquela casa fosse um tubo de ensaio no qual Vinterberg fizesse seus experimentos. É com isso que o diretor resgata seu interesse de pesquisa humana como em “A Caça”, especialmente na cena passada na mesa de jantar, onde costumam ocorrer as votações coletivas, e o conflito interpessoal balança as estruturas quando um novo membro ameaça o status quo.

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A fotografia do filme também resgata o sépia e a ambientação retrô de seus maiores cults, apesar de que fotografia seja um dos atributos que, mesmo em seus filmes menos representativos ou longe dos ideais da antiga cartilha do Dogma 95, Vinterberg jamais falha em escolher parceiros eficientes, como neste caso Jesper Tøffner. Aqui, a técnica está a serviço sensorial de se permitir que o espectador considere a decisão de os personagens morarem juntos a coisa mais normal do mundo, e que aquelas pessoas poderiam ser eu ou você, numa imersão naturalista. Mas apesar de contar com um de seus atores fetiches, Ulrich Thomsen (do cult “Festa de Família”),  num desempenho seguro, talvez em razão do roteiro ou mesmo da própria persona criada para o filme, quem se permite ir além da mera comunidade hippie para debater a individualidade prejudicada no coletivo é sua outra atriz-assinatura Trine Dyrholm (também de “Festa de Família”), que rouba a cena como a protagonista. Interpretando uma realizada apresentadora de telejornal e esposa traída, a implosão de sua personagem, aos poucos, inclusive numa intensa cena ante as câmeras em cadeia nacional, vai deflagrando a discórdia entre seus companheiros de casa que não sabem de que lado ficar. E os ângulos de câmera que começam agregadores, e incluindo todos os personagens num mesmo enquadramento, começam a fragmentá-los em contraplanos separados, com cortes mais rápidos e menos tempo em cena para cada um. A iluminação antes solar e alegre vai ganhando penumbras e cenas noturnas à luz de velas. Nada é à toa. Há um sentido para ir excluindo os outros personagens da Comunidade do foco principal. Em parte necessário, para investir na história pessoal do casal de protagonistas, porém, por outro lado, uma pena, pois algumas das melhores cenas são dos conflitos em grupo e cambiamento de hierarquias emocionais.

Ainda assim, é Vinterberg em grande estilo.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4
  • Pedro Henrique Sá

    Melhor que críticas que eu li. parabéns