A Criada

Retorno triunfal do thriller erótico, numa fusão de naïf, psicológico, sedução e perigo

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12 de janeiro de 2017

Existiu um período histórico no início do século XX de Ocupação Japonesa na Coréia que deixou uma marca indelével na constituição mútua das respectivas geografias sociais. Principalmente com um déficit recalcado na história coreana.  E, apesar de o cinema ser um ótimo catalisador de cura social através da reflexão artística, não se trata de um tema fácil a ser abordado, pois basta o desequilíbrio da dosagem e pode parecer ou condescendente com o passado ou desrespeitoso e xenofóbico com o futuro. Eis que o maturado cineasta Park Chan-Wook, do filme premiado com o Grande Prêmio em Cannes por “Oldboy”, parte da trilogia da vingança que ele estruturou na década de 2000, alçado a uma fama garantidora até de produção americana no filme de elenco internacional “Segredos de Sangue”, retoma as raízes coreanas com um tratado sobre as pequenas violências das relações mais pessoais.

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Com um conto de época sobre ‘ladrão que rouba ladrão ganha cem anos de perdão’, adaptado do romance galês “Fingersmith” de Sarah Waters, Chan-Wook reivindica seu lugar no panteão dos grandes do cinema. “A Criada” ou “The Handmaiden” no original, pode, sem falsa modéstia, já ser cunhado como um dos filmes do ano, quiçá da década, unindo tudo o que a estética fervorosa pode estar a favor de uma metalinguagem de arte por trás das aparências. Nenhum personagem deste filme é o que aparenta ser por trás das máscaras necessárias da opulência nos figurinos, direção de arte e fotografia estonteante com planos criativos, abusando de enquadramentos em zenital, plongé e panorâmica. Ou seja, nada é a toa em cena, pois ajuda a enganar e distrair a atenção como num truque de ilusionismo, cheio de reviravoltas. O menos que se possa revelar da trama, melhor, bastando dizer que a criada do título é contratada por um pretendente de rica herdeira com quem todos querem casar, e irá servir de espiã dentro da casa para tentar influenciar a decisão de qual candidato escolher, sendo que até o próprio tio deseja casar com ela, para garantir que a fortuna permaneça na família.

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Mas para um filme cuja crítica já alerta para a surpresa das reviravoltas, com as quais o espectador ficará na ponta da cadeira por esperar, o que engrandeceria o filme para além do ‘truque’ narrativo a valer o status de obra-prima a ser ressignificada a partir de uma segunda ou terceira revisão? Engraçado, pois a filmografia coreana não é estranha à construção da violência como metáfora de ruptura social, visto que o país já é erigido pela cisão político-cultural em Norte e Sul, uma violência à sua própria identidade. Então, não seria apenas por isso e sua beleza impactante que o filme deixaria uma marca. No entanto, 2016 foi um ano em que um subgênero cinematográfico estranhamente regressou com força total, capitaneado por três exemplares no último Festival de Cannes, “Elle” de Paul Verhoeven, “Demônio de Neon” de Nicolas Winding Refn e justamente o mais bem-sucedido em ressignificar o gênero: “A Criada” de Chan-Wook. Sendo que o diretor do primeiro foi um dos patriarcas da solidificação do estilo como gênero na década de 80: o thriller erótico, apenas visto desta forma perigosa e sexy isoladamente na década passada em “Desejo e Perigo” de Ang Lee.

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E é desta composição que advém talvez o maior diferencial gerador de tensão ambígua. As altas doses de sensualidade, que sobra em tensão sexual entre todos os personagens de forma não-binária, faz com que personagens masculinos e femininos da trama disputem o lugar de ativos e passivos, num cabo de força constante que pode enganar exatamente quem está em posição predominante na ‘cama de gato’ formada pelo filme. Os cinéfilos mais pudicos poderiam até corar em dizer que o erotismo talvez fosse um pouco excessivo, mas creiam, todo ele é necessário, até porque é principalmente apenas uma cena mais caliente no filme inteiro, porém que será exibida mais de uma vez, revelando mais de uma personalidade a cada momento, sobre quem tem o controle ali. A Criada é um exemplo bem sucedido em politizar o gênero e dar o poder da consciência da erotização como instrumento sufragista voluntário das personagens, ao invés da fetichização involuntária dos personagens em voyeurismo para terceiros. Sem falar que os próprios enquadramentos mudam entre espelhos e reflexos, num capricho visual descortinado de aparências. Tudo é um grande clímax visual diegético com a história.
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Neste momento é que vale retomar o porquê da sombra histórica com o Japão na narrativa de “A Criada”, ainda mais em se tratando de um romance europeu adaptado para o cinema coreano. A escolha de uma adaptação é algo sempre complicado, e se pode haver originalidade ou não. Mas Chan-wook conseguiu transpor um romance ocidental-caucasiano-europeu-cristão (protestante) pra uma cultura asiática recalcada num país totalmente cindido, seja por ocupação japonesa no início do século passado, seja por divisão ditatorial entre Norte e Sul, e transpôs a ressignificação da dicotomia entre empregada/criada pra colonizador/colonizado, nativo/imigrante, original e cópia (como nas artes e na identidade).

Virou uma história completamente revalorizada. Cada um ali quer ser mais do que é, para além de suas respectivas identidades, verdadeiras ou falsas, quase todos os personagens falsários de vida, de artes ou de sentimentos, almejando um padrão que alegam apenas existir no ‘devir’ utópico da referência japonesa. Tanto que o título original, “Agassi”, quer dizer ‘patroa’, enquanto que nos EUA e Brasil o título é “A Criada”, e esta inversão de valores classistas também tem tudo a ver com o espelhamento crítico que o filme provoca. Em muito tempo a dicotomia político-cultural não é tão bem trabalhada como neste recalque psicanalítico, o que faz deste exemplar talvez o menos violento graficamente de Chan-Wook, porém psicologicamente o mais devastador em suas sutilezas. As atuações seguem estas nuances, com destaque exemplar para as protagonistas, Kim Tae-Rim e Kim Min-Hee, esta última que já havia brilhado no melhor filme coreano de 2016, “Certo Agora, Errado Antes” de outro mestre, Hong Sang-Soo. Talvez desta experiência que a atriz Kim Min-Hee conseguiu dar uma surpreendente dicotomia entre um humor naïf, quase caricato, a uma profundidade de dor contida, quase sado-masô, contrastando perfeitamente com a imaculada compleição de alabastro de sua pele de porcelana, que mais parece uma boneca russa contendo várias outras camadas dentro de si.

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Um thriller erótico, naïf e pesado ao mesmo tempo, cômico e perigoso, sensual e psicológico, formando uma das misturas mais inusitadas e bem equilibradas dos últimos tempos. Imprescindível para qualquer um que diga amar o cinema como a máxima potencialidade do que ele pode alcançar.

 


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