A Cura

Novo longa de Gore Verbinski sofre de crise de identidade e deixa a desejar

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17 de fevereiro de 2017

A moda do momento no universo cinematográfico, além do enorme número de remakes, é a divulgação errônea dos filmes por meio de trailers que ludibriam o público, isto é, que não mostram sobre o que o filme se trata de fato para melhorá-lo aos olhos do público, aumentar a sua expectativa em relação ao mesmo e, assim, tentar obter um lucro maior com a bilheteria. Acontece que isso pode ser um tiro no pé, pois, em tempos de internet ativa, os espectadores não têm o menor pudor de ‘xingar muito no Twitter’ e em outras redes sociais para acabar com a imagem de um longa-metragem que não lhes foi satisfatório, principalmente se pagaram pelo ingresso. A situação se torna ainda pior quando o tal trailer atrai para os cinemas um público diferente daquele para o qual o filme foi produzido. Infelizmente, este é o caso de “A Cura”, novo longa de Gore Verbinski, que retorna ao gênero terror após dirigir comédias como “Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra” e “O Cavaleiro Solitário”. Na verdade, o diretor parece não conseguir se decidir entre terror, suspense, thriller e fantasia, apesar do filme estar sendo vendido como um terror diferentão, o próximo depois do bem-sucedido “O Chamado” (2002). Além disso, a sexualidade da personagem de Mia Goth (“Ninfomaníaca: Volume 2”), inexistente na história, é explorada não só no trailer, como também no cartaz do longa só para ter um atrativo a mais.

Na trama, Dane Dehaan (“Versos de um Crime” e “Life – Um Retrato de James Dean”) é Lockhart, um ambicioso executivo do mercado financeiro nova-iorquino que é enviado para os Alpes Suíços com a missão de trazer de volta o CEO de sua companhia de um ‘Centro de Cura’, mas logo percebe que o lugar tem um propósito muito mais obscuro do que aparenta. Jason Isaacs (o Lucius Malfoy da saga Harry Potter) dá vida ao médico responsável pelo “spa de bem-estar” Dr. Volmer e Mia Goth interpreta o interesse romântico de Lockhart, Hannah, uma jovem de aparência e atitude frágeis e infantis, a única de um local cujos internos são todos idosos que já tiveram altos cargos em grandes multinacionais, tida como um caso especial pelo Dr. Volmer, que esconde muito por trás da superproteção para com a garota.

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“A Cure for Wellness” (no original) começa bem, mas vai se perdendo ao longo da extensa projeção de quase 2 horas e meia. A sua prolongada duração combinada com seu ritmo lento e sua história bagunçada são a fórmula certa para que a película se torne interminável para o espectador. O roteiro de Justin Haythe (“Foi Apenas um Sonho” e “O Cavaleiro Solitário”) e Verbinski não faz jus à ambição imagética do diretor, que mira no conceitual e acerta na miscelânea. Verbinski tenta fazer algo grandioso com belos planos e fotografia elegante, em que branco e verde predominam em referência ao relaxamento, à purificação e à desintoxicação proporcionadas por um spa, mesma proposta do dito ‘Centro de Cura’. O enredo confuso, entretanto, não deixa que esse desejo se concretize, uma vez que o suspense com ares góticos se autossabota ao inserir elementos aleatórios de fantasia e transitar entre a elegância e a insanidade, entre a beleza e o gore.

A trilha sonora, que mistura sagrado com profano e suspense com terror, entra para tentar aumentar a imersão do espectador numa trama que não carrega surpresas, já que dá pistas desde o início sobre o plot twist no mínimo esquisito com uma vibe meio “O Fantasma da Ópera”, meio “A Outra Face” e bastante “A Colina Escarlate”. Nos primeiros quarenta minutos de película, a história se torna previsível para os olhares mais atentos e acaba perdendo um pouco a graça, o que não impediu Verbinski, mesmo com uma duração tão longa, de também deixar pontas soltas, que talvez tenham sido esclarecidas em cenas descartadas na edição para dar lugar a outras desnecessárias, mas que são visualmente mais bonitas. Com uma premissa intrigante e ótimas atuações, “A Cura” tinha tudo para ser um filme incrível, porém optou pela aparência em vez de um conteúdo mais coeso. O filme tem um desfecho deveras duvidoso e não sabe a que veio. Uma pena.

 

A Cura (A Cure for Wellness)

Alemanha / EUA – 2016. 146 minutos.

Direção: Gore Verbinski

Com: Dane Dehaan, Mia Goth e Jason Isaacs.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 2