A dádiva da escrita

A todo privilégio corresponde uma responsabilidade à altura

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24 de dezembro de 2020

O dom da palavra é tanto uma dádiva quanto um privilégio. Que enorme honra é poder ler e escutar, assim como é uma honra em dobro poder escrever, ser lido e respondido. Talvez não tenhamos a real noção do privilégio que significa dispor de palavras para concatenar a miríade de pensamentos muito mais amplos do que as palavras possam conter até que venhamos a perder esta capacidade. E não se está falando aqui apenas do universo circunscrito à internet ou às redes sociais… Vai muito além dele. O poder de se comunicar e expor ao outro suas vulnerabilidades, estas que caminham de mãos dadas com cada palavra vertida do avesso ao mundo exterior, e de se fazer entendido e correspondido a partir das palavras que ressoam numa resposta do outro de volta para ti. Um poder que pode ser tolhido, censurado e até castrado… Palavras também são emoções e, como estas, podem estar igualmente desguarnecidas perante ataques ao sentimento que as gera. À depressão… Ao estresse… À inveja… À desunião.

O esmorecimento da escrita pode advir de várias quebras na confiança necessária para expor com convicção aquilo em que você acredita. E todos somos passíveis de cambalear. Mal imagina o outro que todo mundo passa por seus momentos de queda e baque. Quando passam por ti na rua, ou escutam sua voz no telefone, podem talvez mal fazer ideia de o quão destroçado possa estar… O tamanho do esforço que se faz necessário para blindar as fraquezas de modo a pelo menos colocar o rosto pra fora na tempestade do cotidiano e subsistir a mais um dia… Um dia de cada vez, pois pode ser demasiado pesado pensar adiante por ora…

Mal imaginaria você o esforço que seria ter de pedir por ajuda, por auxílio, até pelo mais básico. Às vezes ajuda até para sorrir. Para chegar ao outro lado, para saber o que tem lá, que pode ser pior, melhor ou simplesmente diverso do que se tem aqui… Mal imaginaria você que, mesmo aparentando ser um impávido colosso, e os outros nem acreditarem que você, por dentro, possa estar ruindo… Mesmo depois da hercúlea tentativa de manter as aparências e ainda assim agradecer silenciosamente às amizades próximas que lhe dão força, inconscientes da importância que significam para ti… Quem diria que você poderia ser traído pelas palavras. Ou melhor, se deixar trair… Confiar nas palavras erradas… Dar importância para palavras que nunca lhe representaram. Enganos naturais de vida. Não há a quem culpar. As palavras “amor” ou “confiança” nunca serão algo errado para se presentear. Amor e carinho dado, mesmo quando não correspondido como merecido ou devido, sempre será amor semeado no mundo. E de sementes de Amor nada de mal poderia florescer.

Palavras são presentes. As pessoas fazem o que quiser com eles. Inclusive com o amor que lhe é dado. Elas podem descartá-lo, e dali nada irá mais brotar. Mas você que deu o amor descartado saiba que regou algo em si mesmo. Ainda que do descarte de outrem lhe sobre a seca, a aridez, de fora para dentro, de seu interior só poderá jorrar uma fonte infinita e abundante de luz. Uma luz própria, de quem alimenta seu próprio amor, esta pequena grande coisa engraçada que quanto mais se dá, aumenta. Quanto mais se tira, inflama, flama, incendeia. Um fogo nem sempre bonito. Às vezes revoltado. Às vezes sufocante. Às vezes um engasgo que pra fora precisa ser colocado. Gritado. Esperneado. Até ficar rouco. Até se queimar. Até as palavras virarem cinzas…

Mas o que falar depois disso…? O que sobra? Quando a palavra volta? Quando cinzas podem voltar a ser regadas e adubadas e semeadas…? Há tempo para tudo. Até para as faíscas das palavras voltarem. Há um tempo de maturação. De sorver a dor. De luto. As palavras demoram, mas aos poucos elas voltam… Por isso não se deve negar este tempo a elas. Mesmo que isto signifique às vezes abraçar a depressão, cair fundo no buraco e escavar o que de si sobrou sob a terra jogada. Até se reencontrar… e falar para si próprio as primeiras palavras de volta.

E então, vocês se encontraram, velha amiga, velha palavra amiga? Gritou até onde podia doer a garganta, até ficar sem voz e voltar a se acostumar a se ouvir? É tão difícil assim reconhecer sua voz? Sua palavra machucada…ferida, voltar a você e sorrir de novo? Ficar orgulhosa das feridas de guerra como se não viesse sozinha, e sim acompanhada? Cheia de significados novos nas camadas cicatrizadas? Você esteve em depressão, certo? E não quis assumir, certo? Por isso a palavra voltou para lhe reconhecer isso. E agradecer pelo retorno seguro ao lar, no reacender das luzes, escavando a saída pra fora do buraco e sair do outro lado do mundo.

Seja bem-vinda de volta, palavra. Encontre o seu próximo. Relembre a mensagem. Compartilhe. Receba em troca. Escute. Retribua. Mas não deixe de falar, de se abrir, de confiar. Não deixe de encontrar novas palavras. Elas poderão ter certa dose de novas decepções e traições. Mas não tema. Mergulhe fundo. Você está mais forte. Tem mais conhecimento. Experiência. Vá e veja. Viaje. Aventure-se. E depois volte, sempre volte, pra contar como foi sua jornada…