A Dama de Baco

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20 de outubro de 2016

Se tem algo que é democrático na vida é a velhice: de maneira mais ou menos branda, todos vão passar por ela e sofrer suas agruras. Devido à crise mundial, muitos idosos estão passando necessidade e sendo obrigados a trabalhar após a aposentadoria, ou sequer puderam se aposentar. Na Coreia do Sul, há o maior índice de pobreza entre idosos do mundo, sendo que o país é a 11ª maior economia mundial. Quando se trata de mulheres idosas, a situação é ainda mais alarmante. O cineasta E J-Yong põe em discussão esta e outras questões relacionadas à velhice em seu novo longa-metragem, “A Dama de Baco”.

Youn So-young é uma das muitas senhoras idosas coreanas que se prostituem no parque Jongmyo com o pretexto de vender Baco, uma bebida energética muito famosa na Coreia do Sul, para evitar ter que virar catadora de lixo ou a mendicância, únicas opções de trabalho para mulheres da terceira idade. Quando So-young vê a mãe do pequeno Min-ho ser presa, ela começa a cuidar do menino com ajuda dos amigos: uma vizinha transexual e um rapaz de uma perna só. Ele só fala filipino, mas aprende a confiar e gostar do trio.

Ao mesmo tempo que So-young ganha este novo hóspede, encontra antigos clientes que se lembram dela com carinho, porém irão fazê-la passar por momentos traumáticos e dolorosos, ainda que não intencionalmente. Através desses personagens, E J-Yong evidencia as maiores aflições e dificuldades da longevidade: doença, dependência de uma família distante que não se importa, solidão no fim da vida e morte – tanto sob o ângulo da iminência quanto da delonga. Além disso, uma ferida aberta do passado baterá à porta dessa dama da terceira idade, caracterizando o remorso que alguns idosos carregam por vários anos.

Com tom bastante realista, e também um tanto pessimista, o filme de E J-Yong claramente rejeita a expressão “melhor idade”, já que mostra somente os lados negativos de estar velho. O cineasta, entretanto, trata com muito respeito e compreensão a dor dos personagens, conferindo delicadeza a temas tão frágeis quanto a velhice. A crítica à situação de seu país natal acaba por ficar em segundo plano em “A Dama de Baco”, mas longe de passar despercebida.

 

 

Festival do Rio 2016 – Expectativa 2016

A Dama de Baco (Jug-yeo-ju-neun Yeo-ja)

Coreia do Sul – 2016. 110 minutos.

Direção: E J-Yong

Com: Youn Yuh-Jung, Chon Moo-Song, Yoon Kye-Sang, An A-Zu e Choi Hyun-Jun.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4