A Estrada 47

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06 de maio de 2015

Há quem divida o cinema brasileiro em quatro categorias: filmes com temáticas regionais, favela movies, comédias de gosto duvidoso e dramas novelescos. É verdade que isso soa como uma simplificação exagerada, mas não seria exagero dizer que o Brasil não produz cinema de gênero (ao menos não em profusão). Se por um lado isso é bom, pois ajuda a criar uma identidade mais definida e a dar maior unidade às produções nacionais, por outro, é extremamente prejudicial, pois coloca nossos cineastas em grande desconforto na hora de aventurarem-se a tentar algo novo. Essa falta de know-how acaba resultando em filmes medíocres, como Assalto ao Banco Central e Segurança Nacional.

Infelizmente, A Estrada 47 chega para reforçar esse acervo.

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O longa trata da jornada de um grupo de soldados brasileiros na II Guerra Mundial com a missão de desarmar um perigosíssimo campo minado na Itália e, assim, liberar a chamada Estrada 47, o que permitirá a entrada dos soldados aliados na região. Sob o ponto de vista de Guimarães, personagem interpretado por Daniel de Oliveira, o público acompanha a aventura dos pracinhas, vivenciando seus dramas e angústias, suas dúvidas e receios, a incapacidade de compreender a guerra e a esperança de concluir a missão.

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O grande problema do filme é que tudo isso soa artificial e a narrativa acaba sufocada por um amontoado de clichês, tornando o filme enfadonho e cansativo. O exagero de closes na tentativa de estabelecer um clima claustrofóbico, o excesso de narrações em off relatando o diálogo imaginário entre Guimarães e seu pai, o prisioneiro de guerra que cria vínculos de amizade com os inimigos, o samba no meio da noite para afastar momentaneamente os horrores da guerra, os conflitos entre os membros do grupo. Tudo isso soa artificial e contribui para que o público não crie qualquer empatia com os personagens, algo indispensável para que um filme de jornada funcione enquanto narrativa.

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Por outro lado, a escolha de locações que em nada remetem a um cenário de guerra prejudica a imersão do público naquele mundo.

Na sucessão de equívocos que constituem A Estrada 47, o maior deles talvez seja o personagem interpretado por Francisco Gaspar. Um dos clichês mais recorrentes e eficientes dos filmes com temáticas tensas e fortemente dramáticas é a inserção da figura do alívio cômico. Em A Estrada 47, esse papel cabe a Piauí. Contudo, a partir do momento em que o filme não consegue funcionar como o drama a que se propõe, o personagem perde completamente a sua função, mais parecendo um idiota desprovido de qualquer capacidade de compreender o universo em que está inserido. E isso, mais uma vez, distancia o público e faz com que a obra se torne cansativa.

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Merece destaque a belíssima fotografia do filme que, com a predominância das cores frias, consegue transmitir com perfeição o isolamento vivenciado pelos personagens, algo que a obra, enquanto narrativa, não conseguiu.

Apesar de tudo, Estrada 47 tem o mérito de propor algo diferente do padrão cinematográfico apontado no início do texto. Falhou, mas qualquer tentativa de inovação há de ser sempre muito bem vinda.

Festival do Rio 2013 – Première Brasil – Longa Ficção

A Estrada 47 (A Estrada 47)

Brasil/Itália/Portugal, 2013, 107 minutos.

Direção: Vicente Ferraz

Com: Daniel de Oliveira, Richard Sammel, Sergio Rubini, Julio Andrade, Francisco Gaspar.


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