A estrela de Clarice ainda brilha após 40 anos de ausência

Último livro publicado em vida pela autora de 'Perto do Coração Selvagem', o calvário de Macabéa renasce nos palcos numa montagem de tintas experimentais da Definitiva Cia. de Teatro

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21 de janeiro de 2017

Lispector A Hora da Estrela 4808 sépia final mais intensa 3Cesar Augusto Moura e Nicholas Bastos (4)
RODRIGO FONSECA
Existe a quem falte o delicado essencial, conceito que norteia o último livro publicado em vida por Clarice Lispector (1920-1976), A Hora da Estrela, cujo aniversário de 40 anos de vida no imaginário da literatura de língua portuguesa será comemorado em forma de teatro, no palco do Sesc Tijuca, no Rio de Janeiro, como aventura cênica de descoberta de novos sentidos e novas reflexões nas palavras da mais existencial das escritoras brasileiras. Em cartaz desde o dia 20 em solo tijucano, onde fica até 19 de fevereiro, em sessões de sexta a domingo, às 20h, a produção da Definitiva Cia. de Teatro, sob as rédeas do (irrefreável) ator e diretor Jefferson Almeida (de Velho Chico), espatifa o osso da palavra literária atrás de sensorialidades e provocações contidas em minas de ouro verbais como:

“… o vazio tem o valor e a semelhança do pleno. Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu – a meu mistério”.

São palavras de La Lispector, ao desfiar o rosário de decepções da datilógrafa Macabéa num Rio de Janeiro hostil. Migrante de origem nordestina, Macabéa é um possível alter-ego de Clarice, que usa de um narrador fictício (outro alter-ego), Rodrigo S.M., para colocar a própria construção da narrativa em perspectiva. Nesta adaptação, a Definitiva Cia. de Teatro faz uma espécie de jira, compartimentando Macabéa, S. M. e os demais personagens entre seus atores, incluindo talentos como Livs Ataíde, Marcelo de Paula, Paula Sholl e Tamires Nascimento. A voz em off coube a Ricardo Ricco Lima, um dos destaques da sci-fi de horror Zan, ainda inédita em circuito.

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Na entrevista a seguir, o diretor (e também ator) de A Hora da Estrela – a peça, explica o périplo de sua Cia. pela prosa de Clarice.

O que existe de teatral na saga de Macabéa, narrada como um ritual confessionário de um autor inventado (Rodrigo) acerca do conceito de Beleza?JEFFERSON ALMEIDA: O teatro, como princípio, lida com as questões humanas – é assim desde as tragédias. Aqui, nós temos um livro cujos objetos centrais são dois seres humaníssimos: Rodrigo sofrendo a angústia do seu ofício, presentificando e falando sobre as preocupações que o sondam acerca do exercício da literatura; e, através de Rodrigo, Macabéa e sua “vida-quase-nada” que vai passando como um relógio cansado. Do confronto desses dois seres, temos uma discussão filosófica, política e estética sobre o humano e toda sua beleza e fealdade.

Que proposta cênica vocês buscaram no deslizamento do romance para o palco?JEFFERSON ALMEIDA: Partindo do princípio de que o romance é um “metalivro”, de que Rodrigo, à medida que tenta capturar Macabéa como personagem, revela os procedimentos de escrita, nós tratamos a encenação como uma “metaencenação” para, pelo mesmo expediente que Rodrigo, revelar a escrita cênica de tal modo que todas as operações (de luz, de som, de transformação dos cenário) fossem executadas pelos atores de dentro da cena. Assim: peça é metapeça, metateatro. A isso, soma-se ainda a nossa pesquisa musical. É do confronto da literatura com o teatro e com a música que nasce a nossa encenação. E ela tem como princípio a ideia de ensaio (como um ensaio literário) sobre este próprio confronto.