A Fábrica de Cachorros

Machismo mata

por

12 de janeiro de 2019

Então, hoje assistimos à peça “A Fábrica de Cachorros – Instruções Feministas para Tempos Fascistas” com Laura de Araújo, texto Renata Corrêa e direção de Julia Stockler e Julianna Firme.

É uma daquelas obras que é melhor não dizer nada para manter algumas surpresas e impactos, mas vale dizer que o texto é surpreendentemente bem amarrado e catártico para cada pessoa na plateia, especialmente dependendo de com quem se vá assistir: se com algumas amizades, ou com a família, com cônjuges ou mesmo sozinho/a. Pois será proposta uma pequena grande revolução necessária. Alguns talvez possam até achar um pouco extrema a proposição, mas faz parte da catarse, para equilibrar a balança dos extremos que andamos vivendo atualmente. Nada mais justo que ao menos na ficção possamos exorcizar alguns demônios (inclusive os internos), e propor uma reciclagem pessoal. Reconhecer e responsabilizar pequenos pedaços de nós que possam ter contribuído mesmo que inadvertidamente para o estado das coisas hoje é tão difícil assim? Não é porque somos munidos de consciência crítica perante aquilo com o que não concordamos que não devemos olhar no espelho dentro de nós a possibilidade de algumas vezes estarmos passíveis a reproduzir este comportamento prejudicial — seja apenas no pensamento ou mesmo na condescendência com a atitude de terceiros.

Vale ressaltar como elemento crítico que a peça é gratuita (contendo apenas uma caixinha de contribuição voluntária na entrada — isto para uma produção que dá um mimozinho para algumas pessoas e ainda uns goles de vinho!). Mas ser gratuita mesmo nestes tempos de crise acaba fazendo parte da proposta, até porque o desafio catártico do dispositivo surpresa pode não gerar o mesmo efeito em todo mundo, e justamente por isso ser gratuita te lembra que ninguém lhe forçou a estar ali. E nada disso é um “produto” que você “pagou” e por isso teria algum “direito patrimonial privilegiado” de reembolso rs. O que está ali não é para seu bolso, é para a sua alma.

Vale adiantar, sem spoiler, que o texto é extremamente irônico e bem ritmado pela interlocutora que irá corporificar alguns dos anseios e angústias modernas de rápida identificação com a plateia, na pele da atriz Laura de Araújo. Tudo numa apresentação despojada e com poucos objetos de cena, apenas no que for necessário, como um projetor a disparar algumas imagens certeiras junto com as falas.

Outra coisa que não pode deixar de ser mencionada é a temática tangenciando questões políticas de gênero, ainda mais diante das polêmicas do presidente eleito e sua ministra Damares, por exemplo. Parece ter havido um pavor absurdo contemporâneo do governo eleito tanto da esquerda (qualquer esquerda, pois toda esquerda foi traçada hoje em dia como extremista radical, não havendo mais esquerda moderada para a extrema direita); bem como um pavor ainda maior do feminismo…outra questão que foi categorizada de forma unicamente extrema, pois todo feminismo passou a ser encarado pelos medrosos covardes como radical — sendo que as pessoas que usam essa expressão sequer sabem o que de fato é feminismo radical.

Nada contra, por sinal, o feminismo radical. Mais do que justo que sopese na balança um contrapeso ao machismo radical que ninguém parece aceitar nomear desta forma, e que ainda comanda muitos departamentos da sociedade com punho de ferro patriarcal. Mas o que seria machismo radical? Oras, o machismo quase que predominante: aquele que objetifica as mulheres ao nível de posse, por extremo ódio de gênero. Aquele que só aceita a submissão imposta porque não saberia lidar com o contrário, por extrema covardia e fragilidade mascarada de prepotência.

Precisamos falar mais e mais de machismo radical e parar de sermos condescendentes com ele em achar que “é só uma questão geracional”, “coisa que nossos avós ainda falam”… Pois esta condescendência está custando vidas! Não mais! Não mais!

Screenshot_20190111-231758