A Farra do Boi Bumbá

Importante história de nosso folclore brasileiro, recebe uma releitura delicada, e agradável, de Os Ciclomáticos

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06 de junho de 2017

Os Ciclomáticos possuem um maneira muito peculiar de trabalho. Eles transitam em alguns mundos distintos, e dialogando fortemente com as características do teatro amador, o que parece ser a sua verdadeira essência e vocação. Porém, não se trata do amador no sentido pejorativo da acepção da palavra. Aquele termo que é usado para poder desqualificar um mau teatro, e/ou os seus charlatões. Ao contrário disso eles parecem viver com esta alma e espírito, e assim se assemelham aos ideais de Paschoal Carlos Magno. Falecido nos anos 80, foi diplomata de carreira, mas teve como grande paixão as artes, e, em especial, a literatura e o teatro. Magno e Ana Amélia Carneiro de Mendonça fundam, em 1929, a Casa do Estudante do Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, para estudantes sem recursos. Quando Paschoal cursava o último ano de ciências jurídicas e sociais percorre sozinho, em oito meses, o norte do país. Promove feiras de livros, conferências, visita prefeitos, governadores, intelectuais e o povo, convidando-os a ajudarem a Casa do Estudante do Brasil. Fundou em 1938 o Teatro do Estudante do Brasil (TEB), uma de suas maiores criações. Promove a “Caravana da Cultura” com 256 participantes, em oito ônibus, seis automóveis, dois caminhões, toneladas de livros e discos, e uma kombi com exposição. A “Caravana” atravessa Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Sergipe e Alagoas. Participam os Teatros de Estudantes do Paraná, Brasília, Goiânia, o Quinteto da Villa-Lobos, os grupos de dança da Escola Leda Iuqui, Toni Petzhold, o Conjunto Internacional Gaúcho de Folclore. Foram mais de 274 espetáculos em praças, igrejas, escolas, orfanatos, asilos e colégios.

O ator Julio Cesar Ferreira sempre se destaca, nas produções, devido as suas estudadas composições, sempre muito bem executadas. Foto Danilo Sergio.

O ator Julio Cesar Ferreira sempre se destaca, nas produções, devido as suas estudadas composições, sempre muito bem executadas. Foto Danilo Sergio.

Assim é com os Ciclomáticos. Sempre levando o teatro a todos, com bastante entrega e empenho, assim como um verdadeiro sacerdócio. Levando o seu fazer teatral a todos os lugares onde se ouve dizer a palavra teatro, e participando de festivais pelo Brasil e mundo afora, sem separação do que é profissional ou amador. E assim eles construíram a trajetória deles. Com muita paixão, e amor, ao ofício, nem sempre podendo se cercar das melhores condições, ou qualidades técnicas e artísticas, mas sempre defendendo com garras, unhas e dentes, todas as oportunidades que lhes são possível. Assim, podemos identificar muitos pontos de convergência entre as ações dos Ciclomáticos, como por exemplo também a relação deles com a FETAERJ – Federação de Teatro Associativo do Estado do Rio de Janeiro, com a Aldeia de Arcozelo – fundada por Magno, e sendo o seu maior projeto -, com as vossas oficinais, que formam núcleos -e sub-núcleos de trabalhos. Esta tem sido uma boa parte da trajetória deles.

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O coeso elenco e o lindo Boi Bumbá apresentado no desfecho do espetáculo. Foto Danilo Sergio.

Em mais uma ocupação no Teatro Dulcina – outra de suas peregrinações -, foi possível assistir ao singular projeto “A Farra do Boi Bumbá”, com textos inspirados na obra do folclorista Câmara Cascudo, contos e causos tomam forma no espaço cênico circular, em uma encenação cheio de vivacidade, com autoria e direção de Ribamar Ribeiro. A história se desenvolve em torno de um rico fazendeiro que tem um boi muito bonito. Pai Chico, trabalhador da fazenda, para satisfazer a sua mulher Catirina, que está grávida e sente desejo de comer a língua do boi. O Pai Chico traz a língua do boi e a confusão está formada. E além da história do boi, a trama também traz pequenos contos de Cascudo, e utilizando-se da cultura popular brasileira, do universo do teatro popular, das farsas medievais e das festas brasileiras pra contar esta tradicional história. Os figurinos de André Vital, trabalhados em justaposição de tecidos, bordados, customizados, encontra um bom diálogo com as cores vivas e as diferentes técnicas. A iluminação correta dá conta de iluminar o ambiente, assim como a boa música de Getulio Nascimento que acompanha a brasílidade nas misturas de sons e ritmos. Os atores têm uma grande entrega nos jogos cênicos propostos, são muito homogêneos e cúmplices em vossas execuções; com destaque especial para o ator Julio Cesar Ferreira que apresenta sempre um nível superior de atuação, diante de um grupo sempre muito coeso.

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O caprichado figurino de Andre Vital, e as máscaras, dão um bonito impacto visual à cena. Foto Danilo Sergio.

“A Farra do Boi Bumbá” é uma história importante de nosso folclore brasileiro, e recebe uma releitura delicada, e agradável, desta dedicada Cia.

Serviço

Autoria e Direção: Ribamar Ribeiro

Duração: 50 minutos

Classificação etária: livre

Ficha Técnica

Direção Geral e Autoria Ribamar Ribeiro

Elenco

Nivea Nascimento – Catirina
Getulio Nascimento – Pai Chico
Renato Neves – Patrão
Julio Cesar Ferreira–padre, doutor
Carla Meirelles- feiticeira e empregado
Juliana Santos–enfermeira e beata

Figurino André Vital

Preparação musical e músicas Getulio Nascimento

Preparação de voz Juliana Santos

Cenografia Ribamar Ribeiro

Maquiagem Getulio Nascimento

Produção Executiva Claudia Bueno

Realização Os Ciclomáticos Companhia de Teatro

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 4