A Favorita (42° Mostra de SP)

Os Bastidores do poder das mulheres...sob o olhar de um homem

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15 de janeiro de 2019

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*Talvez este “A Favorita” (“The Favourite”) seja o filme mais Hollywoodiano de Yorgos até agora, o que não tem de ser tratado necessariamente como uma questão, mas sim como uma declaração de estilo. Apesar de ser um filme passado numa Inglaterra de época, ainda assim é a típica visão americana do Reino Unido, inclusive com o humor mais caricatural e de paródia às vezes. Mas com um diferencial: o fato do grego Yorgos Lanthimos acentuar, como lhe é de costume, o ridículo e absurdo do ser humano e de nossos lados animais — não à toa praticamente todos os filmes de Yorgos possuem títulos com nomes de animais, como “Dente Canino”, “O Lagosta” ou “O Sacrifício do Cervo Sagrado”…menos este “A Favorita” (apesar de existir várias analogias com animais dentro do filme, com a proliferação dos coelhos como metáfora de povo, a nobreza dos cavalos e até os pombos como alvos de caça — vide a irônica e acertada escolha de “Skyline Pigeon” de Elton John na trilha).

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O trio principal (Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone) está excelente e supera a mania do roteiro em categorizar o poder das mulheres pendendo para a histeria. Principalmente a Olivia Colman, soberba, que triunfa em não deixar sua personagem naturalmente caricata ser reduzida a uma caricatura, mas sim cheia de camadas e complexidades por sob os enquadramentos de longos closes em seu rosto, com uso muito bem aproveitado de headshots, além de contrastes interessantes de lente grande angular e o efeito “olho de peixe” para distorcer os grandes cômodos do enorme Castelo e fazer uma crítica que acentue o ridículo daqueles cenários de excessos (apesar de às vezes Yorgos parecer um pouco apaixonado demais por este recurso…)

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Interessante também uso de trilha sonora orquestrada para acentuar o ridículo dos personagens, com o estranhamento do solo de alguns dos instrumentos das músicas, como um teclado dicotômico para realçar a loucura, um dedilhado da viola para aumentar a tensão ou mesmo um órgão soturno para ampliar o psicológico de seus personagens…

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No balanço final, é muito interessante ver um filme construir as relações de poder da realeza renascentista através de um foco exclusivo nas mulheres em torno da rainha, inclusive extraindo pontos LGBTQ+ de exercício de influência e sedução entre elas com o quanto era decidido sem a necessidade dos homens, com bastidores e segredos de alcova (e, mesmo que fosse um rei no lugar da rainha, sabemos o quanto as mulheres sempre foram cruciais para a política mundial, mesmo que invisibilizadas, e, por isso mesmo, mais uma razão para o diferencial do filme trabalhar a visão da rainha ao invés do que já estamos cansados de ver pelo olhar dos reis).

O filme ganhou as láureas de Grande Prêmio Especial do Júri e a merecidíssima Copa Volpi de melhor atriz para Olivia Colman, ambas no Festival de Veneza 2018, além do prêmio de melhor atriz coadjuvante para Rachel Weisz no Hollywood Film Awards.

*originalmente publicado em 18 de outubro de 2018 na cobertura da abertura da 42° Mostra de São Paulo por Filippo Pitanga através do Almanaque Virtual.

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