A Favorita

Novo longa de Yórgos Lánthimos é uma sátira brilhante dos bastidores de poder feminino da alta corte inglesa do século XVIII

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25 de janeiro de 2019

Pela terceira vez consecutiva dirigindo um longa-metragem de língua inglesa, o grego Yórgos Lánthimos segue com seu cinema mordaz e controverso em “A Favorita”, com um roteiro pela primeira vez sem a sua assinatura, escrito por Deborah Dean Davis e Tony McNamara. Em se tratando de um filme de época, o esperado é muito bem entregue: figurinos deslumbrantes, cômodos e jardins do palácio opulentos e uma fotografia que prioriza a luz do dia e acentua toda esta beleza. Já no que diz respeito à ordinariedade desse gênero de filme, o perfil cáustico de Lánthimos não a permite: não resta nada escondido debaixo dos luxuosos tapetes desse suntuoso palácio britânico.

A trama gira em torno de três mulheres: Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz), que exerce grande influência na corte por ser confidente, conselheira e amante secreta da Rainha Ana (Olivia Colman), uma mulher carente de saúde frágil, e Abigail (Emma Stone), prima distante de Sarah e nova criada que logo se torna a queridinha da majestade e faz de tudo para manipulá-la a seu favor. Baseado em fatos reais, “The Favourite” (no original) mostra os bastidores da guerra de poder feminino na corte real da Inglaterra do século XVIII de forma debochada, escrachada e brilhante, com toques de caricatura. Ao colocar as três mulheres no mesmo nível de importância na tela, o trio protagonista brilha igualmente em enorme talento e sintonia com suas línguas afiadas e estratagemas maldosos.

Lánthimos zomba da excentricidade, dos caprichos dos ricos e do modo de vida alheio ao mundo ao redor de sua bolha de luxo através de lentes diferenciadas que distorcem as imagens, como a fish eye (ou olho de peixe), em algumas cenas. Os diálogos com boas doses de sarcasmo e humor negro, sem papas na língua, também cumprem com louvor esta função. Apesar de não ter sido escrito pelo diretor, o roteiro está muito bem alinhado à sua crítica ao comportamento humano e sua tendência à crueldade, já expressa em seus longas anteriores, como “O Lagosta” (2015) e “O Sacrifício do Cervo Sagrado” (2017). O modo como Lánthimos trabalha as personagens femininas com profundidade, deixando transparecer suas diversas camadas, é um ponto alto do filme, já que mulheres são comumente retratadas como loucas e histéricas ou submissas em histórias de época. Não existe ninguém totalmente bom ou mal, todos os personagens carregam sombra e luz dentro de suas personalidades, dificultando a torcida do público – aqui é onde fica mais evidente o lado niilista de Lánthimos.

O filme, que vem sendo premiado em festivais pelo mundo e premiações como o Globo de Ouro, além de liderar os indicados ao Oscar 2019 com 9 indicações, é dividido em sete capítulos com títulos irônicos e vai de um início divertido a um enredo dramático que vai se tornando cada vez mais sombrio. “A Favorita” é o espetáculo decadente da riqueza, que mostra, sem hesitação, que há algo de muito podre no reino da Inglaterra.

 

A Favorita (The Favourite)

EUA / Reino Unido – 2018. 120 minutos.

Direção: Yórgos Lánthimos

Com: Olivia Colman, Rachel Weisz, Emma Stone, Nicholas Hoult e Mark Gatiss.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 5