Fest Rio: Première politizada de A Febre de Maya Da-Rin em defesa indígena

Apresentação do filme multipremiado internacionalmente teve emocionante Carta aberta em defesa indígena

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14 de dezembro de 2019

Sim, é textão. Mas esta é uma catarse por nossas vidas. Leiam a própria conta e risco e lhes desafio a não se emocionarem e ocuparem esse espaço de empatia!

É por isso que amo cinema. Ter uma poderosa catarse como essa que a sétima arte pode nos provocar não é pra poucos. O que é assistir aos filmes quase de maneira 4D! Ainda mais aos nossos próprios, nosso cinema brasileiro, que fala sobre nós e importa acima de tudo a nós mesmos! A nossas vidas! Onde a realidade dialoga com a tela de maneira visceral e salta para a plateia de modo a viajar além fronteiras e aflorar nosso comprometimento e responsabilidade pelo mundo em que vivemos.

Foi assim que me senti quando a diretora Maya Da-Rin leu uma carta aberta e dedicou a Première carioca de seu aguardado filme “A Febre”, multipremiado internacionalmente, a um dos atores do filme, Humberto Peixoto Lemos, indígena da etnia Tuyuca, que foi recém assassinado em Manaus, brutalmente espancado de forma completamente covarde, não provocada, apenas por sua existência estar em dissonância com os escusos interesses públicos… Tudo porque o governo atual propaga ódio e violência armada contra quem eles não considerem “cidadão de bem” (ou, em outras palavras, para quem ameace o status quo de privilégios de alguns poucos sobre muitos) — e isso inclui a causa indígena e a demarcação de terras que este governo quer explorar por pseudo “lucro” imediato que vai apenas esgotar nossas riquezas e terceirizá-las para estrangeiros… até o planeta definhar e morrer sem seu pulmão de diversidade que é a Amazônia. Uma política assassina que autoriza e estimula isso. .

Confiram as palavras de Maya Da-Rin e a íntegra da Carta lida na noite de ontem, que segue mais ou menos assim (vídeo disso no primeiro comentário):

Gostaria de dedicar essa sessão a memória de Humberto Peixoto Lemos, indígena da etnia Tuyuca que morreu no ultimo sábado depois de ter sido brutalmente espancado em Manaus.

Humberto dedicou sua vida à luta pelos direitos dos povos indígenas, era assessor da Pastoral Indigenista, da Associação das Mulheres do Alto Rio Negro e membro da COPIME.

Eu tive o prazer de conhecer o Humberto durante as filmagens. Ele interpreta o vizinho que cumprimenta Justino durante a cena da missa.

A COPIME emitiu uma nota em repudio e indignação contra a tortura e espancamento sofrido por Humberto Tuyuka que eu gostaria de ler antes da sessão:

Humberto é mais uma vítima da crescente onda de violência praticadas contra os Povos Indígenas e a Mãe Terra. Uma violência muitas vezes apoiada pelo discurso de ódio contra as minorias de um sistema que desmonta direitos, monitora e criminaliza as lideranças e organizações e mata. Dessa forma entendemos que está legalizado as perseguições às lideranças e o processo de criminalização contra as mesmas, uma vez que a atual conjuntura política do país facilita.

Segundo o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) este ano o número de assassinatos de indígenas no Brasil aumentou de 110, em 2017, para 135, em 2018, um crescimento de 22,7%, o levantamento listou ainda, no ano passado, 22 tentativas de assassinato, 18 homicídios culposos, 15 episódios de violência sexual, 17 casos de racismo e discriminação étnico-racial, 14 ameaças diversas, 11 situações de abuso de poder e oito ameaças de morte. Um número cada vez mais crescente e assustador.

Diante dos fatos, EXIGIMOS que o Estado e o Ministério Público Federal – MPF, tome as devidas providencias, fazendo justiça, punindo os autores dessa barbárie. Não aceitamos mais tanta violência praticada contra nosso povo, tanto sangue derramado por nossas lideranças que escorrem no chão da Amazônia, no Brasil e Pan-Amazônia. Chega! Basta!

Para a COPIME fica a certeza que a morte não é o fim da luta, ela revigora mais forte naqueles que ficam e no Espirito de nossos ancestrais que nos fortalecem para a nossa RESISTÊNCIA milenar. Humberto Lemos, Presente! Presente! Presente!”

Humberto estará presente aqui conosco essa noite. Eu espero que as duas canções do filme, a cantada na cena da missa na qual Humberto participa e a cantada pela Rosa, possam ecoar nessa sala como um grande canto de dor pelos que se foram e de força pelos que ficaram e continuam lutando com muita coragem pelo direito a uma vida digna.