“A Forma da Água”: o lado b – de brega e de bom – de Del Toro

Na fantasia “A Forma da Água”, o cineasta mexicano recicla referências estéticas de clássicos do audiovisual para atacar chavões morais da América.

por

06 de outubro de 2017

Rodrigo Fonseca

 

Foto: Divulgação.

Foto: Divulgação.

Filho bastardo de “A Bela e a Fera” com “Dançando no Escuro”, o amniótico “A Forma da Água” (The Shape of Water), ganhador do Leão de Ouro de Veneza e abre-alas do Festival do Rio 2017, ecoa desde a noite de quinta, 5 de outubro, no tímpano afetivo dos cariocas e “estrangeiros” aqui residentes pelos acordes de uma velha canção: “You’ll Never Know”. Por se tratar de um “filme de cinema”, ou seja, de uma narrativa que regurgita representações audiovisuais da América para expor o que esta tem de pior (intervencionismo militar, racismo, homofobia), existem chances de seu diretor, Guillermo Del Toro, ter ouvido a canção num filme. Há trechos dela em “Alice Não Mora Mais Aqui” (1974), de Martin Scorsese. Mas nós aqui no Brasil, conhecemos seus versos numa versão cantada por Antonio Marcos na trilha sonora da novela Ciranda de Pedra. Aqui se canta assim:

“Eu vou ter sempre você comigo

Não adianta eu querer mentir

E por onde eu andar você vai estar

E nas noites eu vou te sonhar

Eu vou ter sempre você em mim”.

E esse é o sentimento que se extrai da love story entre a faxineira muda Elisa (Sally Hawkins) e um tritão. São pessoas (ou quase) feitas para noites de sonho decalcadas de musicais da Metro.

E a fotografia de Dan Laustsen ajuda Del Toro a imprimir a fantasmagoria de um pretérito cinéfilo perfeito a uma fábula de Guerra Fria cheia de intolerâncias, mas perfumada a fragrâncias de esperança. É uma fantasia sobre calombos que a Natureza cria para desordenar o relevo da ordem racional. É o lirismo como foco de transgressão.

Guillermo del Toro brinda o público com uma fábula primorosa ambientada no período da Guerra Fria (Foto: Divulgação).

Guillermo del Toro brinda o público com uma fábula primorosa ambientada no período da Guerra Fria (Foto: Divulgação).

Tritões são seres mitológicos, relativos à Continente Perdido de Atlântida, com aspecto ícteo: meio homem, meio peixe. Morde e arranca pedaço, como ameaça a fazer com o agente de tortura que o acossa na América dos anos 1960. Um agente vivido na égida da ira pelo genial Michael Shannon. Entre dentadas e guelras que revelam surpresas, o tritão se faz ver – por Elisa e por nós – por seus olhos de desamparo. Tem alma ali. Há uma física escamosa e um metafísica igualmente porosa: a porosidade da agonia. Nela se cria um amor desvairado, brega como uma canção de Antonio Marcos, capaz de revelar toda a incontinência verbal que cabe no silêncio da mudez. E nela se percebe a institucionalização da violência, tema que Del Toro, em sua autoralidade nerd, persegue desde “Blade 2” (2002).

Aqui, ele depura o lado lúdico e o lado político – coisa que não conseguiu em “O Labirinto do Fauno” (2006) – gerando um espetáculo que ora desperta nossa indignação contra a ordem, ora desperta enlevo romântico. Sally tem sua atuação mais tocante – despindo-se de roupas e pudores – sendo galvanizada pela participação se Richard Jenkins como um desenhista homossexual cuja pena carrega a tinta do companheirismo.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5