A Forma da Água

Filme de abertura do Festival do Rio 2017

por

06 de outubro de 2017

Um boy meets girl clássico, com a exceção de que a mulher não é nem bela, nem recatada e nem do lar, e o homem não é… homem. Guillermo del Toro, mesmo diretor de “O Labirinto do Fauno” volta à tela grande com uma nova criatura memorável, uma versão moderna de O Monstro da Lagoa Negra sem donzelas em perigo. Além disso, diversas minorias são representadas e denúncias sociais são feitas sem jogarem na cara do expectador; o vizinho gay e a amiga negra, que apesar de estarem ativamente presentes, são representados naturalmente sem virar uma questão. Tudo isso feito por um diretor mexicano, que em muitos momentos alfineta o próprio patriotismo americano.

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Rodado em Toronto, no Canadá, mas ambientado nos Estados Unidos da Guerra Fria, o enredo acompanha a história de Elisa (Sally Hawkins), uma mulher que trabalha na equipe de limpeza de um laboratório do governo, juntamente com sua amiga de longa data Zelda (Octavia Spencer). Até que um “homem-peixe” (Doug Jones) é trazido como um experimento secreto para esse laboratório sob a vigia do vilanesco tenente Strickland (Michael Shannon), que se recusa a ver a criatura como algo mais do que um objeto de estudo. Muda e órfã, Elisa sabe como é ser incompreendida. Ela e a criatura se conectam. Para salvar seu amado, nossa heroína elabora um arriscado plano de fuga, recorrendo ao seu vizinho (Richard Jenkins) e à colega de trabalho.

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O filme começa de baixo d’água, com a câmera flutuando através dos móveis submersos do apartamento da protagonista, lembrando uma cena icônica de “Inferno”, de Dario Argento e nos levando a entender que “A Forma da Água” é um conto de fadas adulto e sombrio, e que não seguirá as regras do realismo cotidiano. Visualmente sofisticado, é de uma beleza que só nos faz mergulhar mais na história desse filme, e acreditar que o amor de uma mulher com um peixe pode ser real e natural. Sem deixar de notar os momentos de gore sempre impecáveis de del Toro. E para quem ama filmes cheios de referências, esse é um prato cheio delas, vindas diretamente da Era de Ouro do cinema Americano.

Apesar de ter tido as cordas vocais cortadas quando bebê, a protagonista, que no começo parece ter uma inocência e inquietude como de Amélie Poulain, é na verdade uma mulher que trabalha, se masturba e vai ganhando voz ao longo da narrativa (literalmente). Um mérito para a parceria de del Toro com a roteirista Vanessa Taylor. A trilha de Alexandre Desplat nos carrega pelo filme, que vai de suspense a drama, e até mesmo comédia, oferecendo ao espectador uma experiência poética e uma declaração de amor aos monstros e criaturas do cinema fantástico.

Com lançamento previsto no Brasil para 11 de janeiro de 2018, o vencedor de Veneza abre o Festival do Rio no Cine Odeon às 23h59m. “A Forma da Água” é um filme para os que sonham, e depois de vê-lo, gostaria de terminar esse texto dizendo que meu coração fez Chica Chica Boom.

Avaliação Isabela Costa

Nota 5
  • Antonio Miranda

    Melhor crítica que eu já vi de um filme. Essa Isabela Costa mandou muito! Filmaço. Estava no festival e não consegui prestar atenção no resto depois dessa abertura. Fico feliz pela crítica construtiva e bem feita. Deveriam existir mais críticas como você Isabela.