A frente fria que a chuva traz

Neville D'Almeida retorna aos cinemas depois de quase duas décadas

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28 de abril de 2016

Inspirado na peça homônima de Mario Bortolotto, “A frente fria que a chuva traz” marca o retorno de Neville D’Almeida às telas depois de quase 20 anos. Desde “Navalha na carne” (1997), seu último filme até então, o cinema brasileiro vem se modificando e se tornando cada vez mais diversificado, mas alguns temas permanecem vivos e recorrentes na cinematografia nacional: regionalismos, favela movies, conflito de classes e denúncia. O novo longa de Neville é tudo isso, mas ao estilo autoral do diretor, a cujo nome a pecha de maldito aderiu tal qual tatuagem não à toa.

Neville não é afeito a metáforas. Implacáveis, seus filmes não permitem subterfúgios interpretativos que fujam do seu discurso. Apropriando-se do slogan “cinema verdade” que caracteriza os documentários, a ficção de Neville é real e incomoda. Incomoda porque põe o dedo na ferida. Nela não há subtexto, tudo é texto.

A Frente Fria que a Chuva Traz

A Frente Fria que a Chuva Traz

Ambientada no morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, a obra denuncia a apropriação das favelas pela classe mais abastada, composta por pessoas acostumadas à ideia de que tudo lhes é permitido, já que tudo tem um preço e está à venda. Contrastando a paisagem deslumbrante da cidade com a dura realidade da população carente, o filme abre com tomadas aeras belíssimas entrecortadas por imagens do morro, como se fizesse questão de lembrar a todo momento que o pobre existe e faz parte deste cenário de sonho. Numa suposta integração entre ricos e pobres (uma integração falsa, que não resiste ao primeiro diálogo), jovens da alta classe alugam uma laje na favela (ou comunidade, termo que, em tese, os aproxima do ambiente) para festas regadas a sexo, drogas lícitas e ilícitas e funk.

É nesse cenário que toda uma noção deturpada do mundo vem à tona, evidenciando os preconceitos e o vazio de ideias próprios de quem “tem a aparência certa e mais p* nenhuma”, como frisa o segurança contratado pelos esbanjadores festeiros logo no início da trama. Contestando a ideia de que o fascínio dos ricos pela favela evidencia o desejo íntimo de um convívio de classes mais harmonioso, os personagens de “A frente fria que a chuva traz” fazem questão de enfatizar, sempre que podem, a existência de um muro imaginário entre esses dois mundos, mesmo que eventualmente se disponham a um contato mais próximo. Ainda assim, um contato em que eles pagam e os pobres servem, numa relação de dominação e subserviência que extrapola os limites de suas casas de luxo.

A Frente Fria que a Chuva Traz

A Frente Fria que a Chuva Traz

Não por acaso, a caótica Amsterdam, personagem de Bruna Linzmeyer, uma jovem pobre e viciada em heroína, que se prostitui para sustentar o vício, é a pessoa mais lúcida daquele universo. Cabe a ela a tarefa ingrata de apontar toda a hipocrisia desse ambiente em que “todos querem brincar de povão, mas não querem neguinho de verdade subindo a laje deles”. E ela o faz de forma contundente, sem papas na língua, assim como o diretor que lhe deu vida.

Há, evidentemente, uma clara esteriotipização de comportamentos em “A frente fria que a chuva traz”, mas isso não confere à narrativa qualquer aspecto fantasioso. Ela existe para ressaltar o texto, para tornar claro o discurso. Trata-se, na verdade, de um recurso narrativo do diretor para chamar atenção para uma realidade pungente e convidar à reflexão sobre o tema proposto. E é inegável que o objetivo tenha sido alcançado.

A Frente Fria que a Chuva Traz

A Frente Fria que a Chuva Traz

Os 18 anos de silêncio de Neville D’Almeida chegam ao fim mostrando que ele continua em forma e disposto a não fazer concessões. Seu cinema continua, felizmente, marginal.

Festival do Rio 2015 – Première Brasil: Hors Concours longa ficção

A frente fria que a chuva traz (A frente fria que a chuva traz)

Brasil, 2015, 80 minutos.

Direção: Neville D’Almeida

Com: Bruna Linzmeyer, Johnny Massaro, Chay Sued, Natalia Lima Verde, Juliana Lohmann, Marina Provenzzano, Juliane Araujo, Mario Bortolotto.

Avaliação Celso Rodrigues Ferreira Junior

Nota 5