A Gangue

O mais alto grito de existência dos silenciados

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28 de agosto de 2015

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Sinistro. Esquerdo. Errado. Tudo o que é diferente na história e incompreendido foi tratado assim. Sinistro é sinônimo de esquerdo em espanhol, antônimo de destro, ou seja, direito, pressupondo que o inverso disso é o que está errado. Como exemplo, os deficientes auditivos, muitos destes mudos desde nascença, cuja linguagem de sinais foi proibida por séculos a fio, apenas pela sociedade não querer encarar a diferença. Isto dificultou uma unificação da linguagem, que infelizmente se tornou dispersa entre as culturas. Cada país possui uma. Prova de o quanto a categoria é injustiçada e foi propositalmente discriminada. E como para cada ação a natureza reage com uma reação, qualquer ser vivo violentado reage com igual violência, o que já começa a explicar o título “A Gangue” (“The Tribe”, 2014, dirigido/roteirizado por Myroslav Slaboshpytskiy), sobre escola especial para surdos e mudos que cria uma pequena máfia interna com requintes de violência moral, e aval de professores, para contra-atacar e subsistir numa sociedade em desequilíbrio de força.

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O parágrafo acima não precisa desculpar o filme, todavia já vai justificando circunstancialmente o porquê do choque tão grande que o filme causa desde o frisson em Cannes 2014, levando o prêmio da Semana da Crítica e chamando atenção para a filmografia ucraniana. Sim, o público irá se dividir entre aqueles que acham a violência não só física como moral injustificável, e os outros que entenderão como necessária para exprimir a história. Independente disso, há algo além da pura reação sado-masô que o filme evoca, um choque maior, sem querer falar em trocadilhos: A Linguagem. Em um filme sobre surdos e/ou mudos, quase todos os diálogos transcorrem por linguagem de sinais, sem legendas. Sim, sem legendas. Com exceção de uma ou outra conversa de fundo entre ocasionais personagens não-deficientes, o foco é tratar diferentemente os diferentes, e ao público como se pudesse chegar mais perto destas condições. Por incrível que possa parecer, de fato com menos de 10 minutos de projeção, a plateia se acostuma naturalmente, e já passa a se transpor para dentro da tela, sentindo as emoções exprimidas a despeito de palavras, pois muito mais do que um mero formato sensacionalista de “o filme sem legendas”, é uma escolha artisticamente conceitual atrelada ao conteúdo. E não é o primeiro filme a tentar se comunicar desta forma, como alguns podem se lembrar Mel Gibson bem tentou distribuir seu “A Paixão de Cristo” em aramaico sem legendas, pois dizia que a história bíblica era tão conhecida em nossos corações que dispensava explicações, mas foi vencido pela distribuidora do filme que exigiu as legendas.

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Como a trama versa sobre jovens numa escola especial que por si só já é segregada do mundo, e uma vez que interagem com o ambiente externo são tratados numa relação de inferioridade, não resta outra solução senão o espectador se identificar com essa anarquia juvenil e reagir da mesma forma. Quando o filme explicita algo, como nudez, sexo ou violência deste pequeno microcosmos emudecido, é porque quer mais do que dar voz, quer dar um grito de existência aos marginalizados. Afinal, um bom exemplo na própria narrativa é uma cena emblemática, típica da realidade feminina e dos menos favorecidos da sociedade, que ocorre a uma das jovens no filme, de teor psicologicamente muito mais brutal do que qualquer agressão ou sangue tipicamente machistas que possa ocorrer aos personagens masculinos.

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E choca da mesma forma que a sociedade democrática de direito se acha tão evoluída em tratar seus diferentes, que não consegue superar o tabu daqueles que cometem crimes e simplesmente não são ressocializados após a liberação da cadeia. A mesma injustiça que chamar todos os desfavorecidos que não viram outra saída a não ser o crime de párias ou indesejados é a hipocrisia de fazer vista grossa pra condescendência com um meio que propicia os diferentes a reagirem com o mesmo impacto que sofreram. Daí vem o gélido olhar da fria ucrânia, os cortes frios e abruptos, a montagem radical e cirúrgica que parece colocar a sociedade numa mesa de operação, com o corpo aberto, para se autoanalisar.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5