A Garota do Livro

Roteiro do primeiro filme de Marya Cohn é interessante, mas poderia ter sido melhor trabalhado

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26 de maio de 2016

Um trauma do passado que impede uma mulher de ter uma vida normal e atingir seus objetivos. O tema, abordado recentemente no longa “Pais e Filhas”, é também o ponto de partida de “A Garota do Livro”, escrito e dirigido pela estreante Marya Cohn. O filme narra a história de Alice Harvey (Emily VanCamp), uma jovem editora de livros de 28 anos, filha de um poderoso agente literário de Nova York que sonha em ser escritora. Ao ser recrutada para trabalhar no relançamento de um livro de Milan Daneker (Michael Nyqvist), um antigo cliente de seu pai, Alice precisará enfrentar antigos fantasmas para se permitir viver o amor e a realização de seus desejos.

Apesar de terem origens bem distintas, os traumas que Alice e Katie, de “Pais e Filhas”, têm dificuldade de superar possuem a semelhança do sexo casual como válvula de escape e a consequente sabotagem de um ótimo relacionamento em potencial. Katie e Alice também são personagens de livros nos enredos que protagonizam, porém há uma imensa diferença, respectivamente, entre ser retratada como uma filha amada por um pai e uma adolescente carente de compreensão dos pais que foi vítima de pedofilia. Cohn perde uma ótima oportunidade de levantar uma boa discussão sobre o assunto do abuso de menores, preferindo apenas utilizar os eventos como motivos para um trauma ainda não superado. A escolha pelo formato tradicional da narrativa em que passado e presente são alternados, no entanto, foi bem empregada ao colocar a Alice de 28 anos nas mesmas posições da menina de 14 anos para mostrar que ela continua com medo de enfrentar e se impor para as pessoas do sexo masculino: Alice é tratada como secretária por seu chefe, como criança pelo seu pai egoísta e autoritário, não consegue manter um namoro, nem encarar Daneker com relação a seus ressentimentos. O único contato que Alice possui com outra mulher na trama é sua melhor amiga Sadie (Ali Ahn), já que sua mãe tem um papel insignificante e desaparece do longa em sua idade adulta sem nenhum motivo.

Cohn subestima a capacidade de entendimento do espectador ao explicar o filme inteiro através dos diálogos em “The Girl in the Book” (no original) – a cineasta conduz a trama de forma que nunca haja surpresas sobre as razões por trás de atitudes dos personagens e o que vai acontecer a seguir, muito menos sobre a óbvia resolução final. Por outro lado, Cohn consegue captar muito bem a essência e os sentimentos dos personagens por suas expressões faciais e olhares em cenas de silêncio. Ao contrário do melodramático “Pais e Filhas”, o drama “A Garota do Livro” foge do exagero sentimental e constrói muito bem os personagens Alice, principalmente na adolescência (vivida pela talentosa Ana Mulvoy Ten), e Daneker (o sempre excelente Michael Nyqvist), a personificação do fetiche masculino por “Lolitas”. Marya Cohn perdeu a chance de realizar um filme mais profundo, inteligente e relevante para a atualidade, mas deixa a expectativa de que realizará produções melhores no futuro. Para os olhos mais despreocupados e menos detalhistas, este filme será um entretenimento mais bem aproveitado.

 

 

A Garota do Livro (The Girl in the Book)

EUA – 2016. 86 minutos.

Direção: Marya Cohn

Com: Emily VanCamp, Michael Nyqvist, Ana Mulvoy Tem, Ali Ahn, David Call e Michael Cristofer.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 3