A Grande Aposta

Quebrando a banca de tanto rir num dos melhores filmes desta temporada do Oscar

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21 de janeiro de 2016

“A Grande Aposta” de Adam McKay de fato foi literalmente uma grande aposta. Eis que uma equipe inusitada de dois tipos de projetos diferentes e aparentente heterogêneos se juntou. De um lado, um roteirista/escritor Michael Lewis de sucessos oscarizados como “Um Sonho Possível” e “O Homem que Mudou o Jogo”, onde conheceu e virou amigo do ator/produtor Brad Pitt. E, do outro lado do ringue, Adam McKay, um cineasta antes especializado em comédias tidas como pastelão com o amigo Will Ferrell, fazendo filmes de gênero geralmente subestimados ou esnobados como o excelente “Anchorman 2” que no Brasil foi traduzido como “Tudo Por Um Furo” ignorando haver um antecessor, “O Âncora”, já que o primeiro filme da franquia não havia feito sucesso por aqui. Foi assim que todos se uniram com um dos elencos mais estelares e eficientes da temporada, com junções inusitadas como o geralmente comediante, e grande amigo de Ferrell, Steve Carell, além do também produtor do filme Brad Pitt, e os excepcionais camaleões da nova geração Christian Bale (“Batman” e “Psicopata Americano”) e Ryan Gosling (“Drive” e “Blue Valentine”).

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O grande desafio na verdade era conseguir verter o tema do novo livro de Lewis, “The Big Short” no original, sobre a intrincada crise financeiro-bancária nos EUA desde 2008, em termos inteligíveis e que interessassem ao público em geral. Seu roteiro anterior, “Moneyball – O Homem que Mudou o Jogo”, sobre como a matemática foi usada para revolucionar as regras do beiseball como esporte, apesar de numa roupagem de excelente filme, foi considerado um pouco “complexo” para os grandes públicos. Mesmo capitaneado por um ator que atrai plateias como Brad Pitt. A verve intelectualizada, cujas obras versam sobre temas técnicos e críticos desmascarando as Instituições americanas, é sim muito bem-vinda ao mundo da arte, mas filmes ainda são produtos para poderem subsistir e talvez só precisasse encontrar o condutor certo com a exata dose de humor, ironia e espetáculo para enfim ganhar o devido reconhecimento.

20150923-aposta Tudo bem que o tema da fraude no mercado financeiro americano já foi retratado em vários ótimos filmes, como “Trabalho Interno” ou mesmo na crônica à corrupção do sistema imbuída na própria sociedade como no recente “O Lobo de Wall Street”. Todavia “A Grande Aposta” acertou em cheio todas as qualidades acima mencionadas para se destacar, cair nas graças populares e ser indicado a todos os prêmios da temporada. Em primeiro lugar, um destaque ao tom jocoso e moderno, quase burlesco, que enquadra bem nas interpretações cartunescas principalmente de Christian Bale, impagável com seus TOCs e o olho de vidro, e Steve Carell, construindo uma personalidade pessimista à la George Costanza (personagem de ‘Seinfeld’). Sem falar que o nível de produção é refinadíssimo, com inúmeras locações variadas, personagens colaterais interessantes ainda que às vezes se percam um pouco até que o diretor os costure direito, e especialmente uma trilha sonora eclética que dá ritmo ao filme. Ora num compasso efervescente tipo o pop eletrônico de Gnarls Barkley ou Gorillaz, ora ostentação com o rap de Ludacris e Pharrell, ora num tom pesado da quebra da bolsa e de vidas despencando com o heavy metal do Pantera, Led Zeppelin e Metallica. Onde até a trilha é irônica com o texto, alguns dos pontos altos são as participações especiais de Margot Robbie (justamente revelado por “O Lobo de Wall Street”) e Selena Gomez (ex-estrela da Disney e “Springbreakers”) em explicações hilárias de como algumas das expressões financeiras mais difíceis funcionam, satirizando que até atrizes tidas como de um mundo superficial e vazio podem entender e ensinar como os EUA levaram a si mesmos pro fundo do poço com especulação financeiro-imobiliária.

Misógino? Talvez. Pretensioso? Em nenhum momento. Isto porque se assume desde o princípio narrado pelo personagem falastrão de Ryan Gosling como exatamente isso: uma paródia confessa ao circo dos horrores da vida comum que permitiu uma crise escalonada ao nível mundial apenas por um interesse comum a todos: quem ganha mais custe o que custar. E não se torna hermético nem unilateral, pois ainda arremata mostrando o outro lado com o altíssimo preço de quem paga no final. Ponto altíssimo para a junção dos dois lados da moeda dentro e fora da história, com a dosagem dos realizadores certos pro serviço.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5