A História da Eternidade

Premiada obra de arte com delicadeza ímpar arrebata poeticamente

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27 de fevereiro de 2015

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‘Filme de sertão’. Esta expressão resume um gênero cinematográfico tipicamente brasileiro atrelado às suas características geográficas únicas. Porém, falar que o novo filme “A História da Eternidade” pertenceria apenas a este gênero seria extremamente reducionista. Para começar porque transcende a intenção original do que se pretende esta linha narrativa, através do pouco usual enfoque feminino nesta seara, trazendo sensibilidade e metáforas de linguagens artísticas vanguardistas. E em segundo lugar porque é mais um exemplar da produção revolucionária advinda de Recife que anda modificando o cinema nacional, e mesmo assim faz algo diferente do que esta vertente anda realizando.

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“A História da Eternidade” é uma joia ímpar. Sua história se concentra em torno de três mulheres de gerações distintas com desejos reprimidos, num árido vilarejo do interior de Recife: uma jovem que substitui a mãe perante o pai retrógrado na pele de Débora Ingrid; uma calejada mulher que perde o filho e é deixada pelo marido, interpretada por Marcélia Cartaxo; e a avó solitária redescobre uma libido proibida frente suas crenças religiosas, brilhantemente defendida por Zezita Matos. Mas o leitor pode estar se perguntando o porquê do título relacionado a tudo isso. É usando a imaginação que elas sublimam as dores e dissabores. É daí que vem a estruturação narrativa contada em capítulos, todos pronunciados por títulos tipicamente fantasiados do folclore do sertão, como pé de galinha, pé de bode e pé de urubu, cada um simbolizando um ato de vida, como um grande teatro. A ironia é que o desenvolvimento da história é seco e natural, mas pontuado por sublimações da realidade a partir da mesma imaginação das personagens femininas referida acima no texto.

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A mistura acaba dando um requinte epopéico de “realismo (levemente) fantástico”, por mais paradoxal que tal expressão pareça, ou melhor, realismo lúdico, adornado pela fotografia engenhosa em ângulos giratórios de Beto Martins. Isso gera algumas das cenas mais inesquecíveis do cinema nacional recente, como a cena musical de Irandhir com a canção “Fala” dos Secos e Molhados de Ney Matogrosso, ou quando Irandhir dá o ‘mar’, sim, o mar, com licença poética, para sua sobrinha no meio do deserto, e o grande ciclo catártico da chuva culminando em desejos antes proibidos ora aflorados… As metáforas e poesia nunca são usadas em vão, e sim em prol do desenvolvimento de personagens. O filme levou os prêmios de melhor direção, ator (Irandhir Santos), atriz (compartilhado pelas protagonistas Marcélia Cartaxo, Zezita Matos e Debora Ingrid)  e o troféu da crítica no Festival de Paulínia, e o prêmio de público na Mostra de Cinema de São Paulo.

Atenção à estreia simultânea nos cinemas (mesmo que injustamente em poucas salas) e no NOW do serviço de TV a cabo da Net.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5
  • Robson Melo

    excelente filme!