A Incrível Jornada de Jacqueline

A delicada razão entre a imagem artística e a indução política

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16 de agosto de 2016

Todo filme é potencialmente um produto comercial, uma obra com valores artísticos, ou até mesmo reflexo de uma identidade cultural ou sócio-política, de forma excludente ou concomitante. Deve-se tomar cuidado com o poder das imagens na história do Cinema para não se influenciar as massas com mensagens subliminares, como foi proibido após se descobrir, por exemplo, que certas marcas mundiais estavam usando de técnicas hipnóticas para induzir o espectador a comprar. Outra forma de se usar o cinema é por manipulação política. Por ser uma forma muito poderosa de alcance popular, qualquer coisa transmitida entre a beleza de imagens aparentemente inocentes pode estar querendo transmitir um convencimento coercitivo ou manipulador. Tudo bem que a comédia francesa “A Incrível Jornada de Jacqueline – A Vaca” de Mohamed Hamidi não chega a tanto, mas nem por isso deveria ser tão leviana em abordar uma história envolvendo imigrantes argelinos… Ainda mais com a história de genocídio étnico da França na Argélia na metade do século XX.

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Aparentemente simplório, o filme retrata um fazendeiro argelino que faz de tudo para levar sua vaca para a França a competir em um dos maiores torneios mundiais, e, para isso, ganha o visto e financiamento de sua cidadezinha ortodoxa, ao mesmo tempo em que conhece vários personagens em sua jornada a pé com a vaca pela estrada. Para além da implausibilidade de roteiro, o que não é o foco numa fábula de humor, o filme até poderia ser visto pelo olhar de uma parábola, mas a caricatura de personagens abobalhados, de uma ingenuidade tacanha, não consegue nem evocar às comédias inocentes do próprio francês Jacques Tati. Qual crítica o filme conseguiria fazer enquanto está ocupado demais tentando tirar humor das ciladas contraídas pelos clichês de imigrantes que almejam sempre um lugar melhor, como argelinos desejando morar na França, só pra tentar consertar isso ao final com os franceses idolatrando um argelino que não fez absolutamente nada para ser adorado, senão ser um completo idiota?

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Tanto que o único personagem com estrutura narrativa séria no filme, mesmo que fracassado sem nunca explicar o porquê a não ser reiterar que o modelo clássico de riqueza francês também está falido, é o representante nato interpretado por Lambert Wilson (“Homens e Deuses”). No demais, sobra o odiável personagem interpretado por Jamel Debbouze (“O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”), reduto do roteiro para as piores qualidades do típico “imigrante vendido” que apagou suas raízes para se tornar parte do lugar para o qual emigrou, e a coitada da vaca, a Jacqueline do título, que não é integrada ao roteiro praticamente em parte nenhuma, a não ser carregada pelo protagonista onde quer que ele vá. Não que a caracterização do personagem principal pelo ator Fatsah Bouyahmed não esteja eficiente como o atrapalhado e demasiadamente ingênuo fazendeiro argelino, de modo maniqueísta, porém alude ao mesmo tipo de papel de palhaço pelo qual Roberto Benigni anda sendo tão criticado por anos consecutivos. Só que no caso de Fatsah com apenas um pouco mais de comedimento.  O que sobra é o recado errado de dominação de arquétipos no olhar colonizador francês perante os próprios argelinos sem identidade no filme.aincríveljornadadejacqueline2-e1469567429390


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