A Juventude

Gozo visual fellini-viscontiano, mas faltou pungência e vanguardismo na história.

por

02 de abril de 2016

e4e61402-a0fc-4d8d-9905-6e4effe704c5

Paolo Sorrentino vem se tornando um cineasta extremamente internacional, tanto em locações quanto em elencos variados, com um pequeno segredo bem simples: continuar sendo o mais italianíssimo possível. E o faz com homenagens à clássica forma de filmar dos cineastas herdeiros do neorrealismo e dos famosos estúdios Cinecittá. Apesar de a exuberância e sofisticação retratada em todos os seus filmes estar mais para a crônica da nobreza realizada por Luchino Visconti, é em Federico Fellini que Sorrentino mais bebe da fonte. Como na revisão que fez para o clássico do mestre, “A Doce Vida”, com o ganhador do Oscar 2014 de filme em língua estrangeira “A Grande Beleza”, onde traçava um paralelo de como um jornalista outrora desesperançado perante o vazio da elite italiana poderia recuperar a inocência do olhar e o sabor da vida, em um caminho inverso ao que o protagonista de Fellini fazia na pele do ícone Mascello Mastroianni.

download

Desta vez o clássico da vez de seu diretor favorito é claramente “Oito e Meio”, sobre um cineasta com bloqueio criativo que se recolhe em um retiro para recuperar as ideias, porém, em “A Juventude” (“Youth” no original), Sorrentino tenta ir além na analogia. Acrescenta mais um protagonista com dilema na carreira estagnada, um maestro aposentado na pele do magistral Michael Caine, que, junto com o personagem do cineasta interpretado pelo também ótimo Harvey Keitel, divagam e debatem num luxuoso Spa na Suíça sobre suas vidas. E, para contar tal história, cada fotograma de puro esmero visual e técnico parece primar pela plasticidade absoluta, como se revisse o conceito dos filósofos gregos de que a beleza é verdade e a verdade é beleza. Tudo é belo…De uma forma que quase começa a incomodar. Porém não necessariamente um bom incômodo, como se quisesse provocar o espectador, e sim como se houvesse dado preferência à estética sobre o conteúdo de forma um pouco artificial e superficial.

552416.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxx

Há tentativas de se alcançar certo existencialismo, sempre calcadas no carisma conjunto da dupla principal, com destaque para Caine, e no reforço da participação especialíssima de Jane Fonda, inclusive assumidamente envelhecida para o papel, que finge ser muito mais plastificada do que a atriz é na vida real, para divar numa das melhores cenas catárticas do filme que põe toda a Hollywood na berlinda e que levará ao clímax da cena diretamente homenageada de “Oito e Meio”. Mas a maioria dos outros questionamentos parece repetitivo, não só de outras obras já vistas, como dentro do próprio filme, principalmente pelo esvaziamento de coadjuvantes que se tornam desnecessários a partir de suas segunda ou terceira cenas, como Rachel Weisz como filha de Caine, e Paul Dano interpretando ser um ator pop também hospedado no Spa. Outras alusões a hóspedes famosos resvala no vazio, como Maradona e um monge tibetano incrivelmente mal colocado e previsível, que não alcança catarse nenhuma. Há sim grandes qualidades, porém mais especificamente na história do personagem de Michael Caine com um segredo assombrosamente doloroso apenas revelado no final, do porquê de sua relutância em aceitar convites até mesmo da rainha da Inglaterra para voltar a reger orquestras sinfônicas, como com a música que encerra o filme, e foi indicada ao Oscar 2016 na categoria de canção original.

Gozo visual, mas faltou pungência e vanguardismo na história.

paolo-sorrentinos-youth-watch-the-trailer-of-the-new-movie-with-michael-caine-and-harvey-keitel

Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/almanaquevirtual/www/wp-content/themes/almanaque/single.php on line 52