A Livraria

Filme vencedor de 3 prêmios Goya é raso e parece não saber a que veio

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23 de março de 2018

Baseado no romance homônimo de Penelope Fitzgerald, “A Livraria” é o novo longa-metragem escrito e dirigido pela espanhola Isabel Coixet (“A Vida Secreta das Palavras” e “Ninguém Deseja a Noite”). Situada em 1959 na pacata cidade litorânea de Hardborough, Inglaterra, a trama acompanha a viúva de guerra Florence Green (Emily Mortimer) em sua empreitada de arriscar tudo e abrir uma livraria, deixando finalmente seu luto para trás. O que ela não esperava era encontrar uma extrema hostilidade polida de Violet Gamart (Patricia Clarkson), uma das pessoas mais ricas e influentes do vilarejo, que faz de tudo para que desista do empreendimento já complicado, por se tratar da primeira livraria que aquela população sem hábito de leitura já viu na vida.

Em uma época em que o cinema nos presenteia com protagonistas femininas fortes e determinadas, a frágil e pacífica Florence Green soa meio perdida, apesar de se considerar e ser considerada corajosa por alguns, principalmente por Brundish (Bill Nighy), um viúvo que vive recluso em sua mansão e parece ser o único morador da retrógrada Hardborough a se interessar por leitura. Coixet parece não saber como conduzir a relação entre Florence e Brundish, deixando no ar a dúvida de haver um interesse romântico de alguma das partes ou ser apenas uma amizade. A única coisa que é certa é que ele apoia e tenta ajudar Florence no silencioso jogo político em que se meteu.

Florence parece seguir o lema de vida de “Cinderela” (2015): “ter coragem e ser gentil”, além da frase feita dita em “Extraordinário” (2017): “quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, seja gentil”. Mesmo pressionada pelos ricos que mandam na cidade de forma educada e sendo alvo constante de fofocas da população local, ela continua com sua conduta pacífica e polite, tipicamente britânica. A menina esperta Christine (Honor Kneafsey), que vira sua ajudante logo que a livraria é inaugurada, bem que tenta abrir os olhos da chefe e nova amiga, mas de nada adianta. À primeira vista, pode parecer que Florence realmente tem coragem, pois largar tudo para construir uma nova vida sozinha (ainda mais naquela época) em solo desconhecido é um grande desafio, e esta é a intenção da história de Penelope Fitzgerald, que Coixet quis manter 100% quando a adaptou no roteiro. O problema, entretanto, é a falta de profundidade tanto dos personagens quanto do drama em si, assim como na ingenuidade da autora de que algo em “The Bookshop” (no original) poderia realmente funcionar. O enredo é tão pouco crível, sem surpresas e fatos que prendam a atenção que logo cai na monotonia cinza e úmida de Hardborough e se torna arrastado antes do final de sua primeira metade. Em seus últimos minutos, que lembram um documentário, o público descobre quem é a personagem por trás da desnecessária e entediante narração em voice-over.

O maior mérito de “A Livraria” é o incentivo à leitura e a valorização dos livros como potenciais agentes educadores. O elenco é outro ponto forte do longa, apesar de já termos visto interpretações tão boas ou melhores de Emily Mortimer, Bill Nighy e Patricia Clarkson em trabalhos anteriores. A pequena Honor Kneafsey é a grande descoberta em que temos que ficar de olho. Com exceção desses fatores, da fotografia, das bonitas e frias paisagens inglesas do countryside e da belíssima trilha sonora, o filme não tem muito mais a oferecer. Isabel Coixet até tenta, mas não consegue evitar que a trama seja rasa e desinteressante. Uma pena, pois a história tinha potencial. É muito difícil entender como “A Livraria” ganhou o prêmio de Melhor Filme de Ficção Ibero-americano da V Edição nos Prêmios Platino e os Prêmios Goya 2018 de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado.

 

 

A Livraria (The Bookshop)

Espanha / Reino Unido / Alemanha – 2017. 113 minutos.

Direção: Isabel Coixet

Com: Emily Mortimer, Bill Nighy, Patricia Clarkson e Honor Kneafsey.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 2