A Maldição da Residência Hill e o medo da tristeza infinita

Série da Netflix possui várias referências e easter eggs

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21 de novembro de 2018

O quão curioso é o fenômeno da nova série da #Netflix “A Maldição da Residência Hill” criada por Mike Flanagan.

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Digo isso de forma alguma a questionar a temática nem a qualidade da obra, porém mais por uma característica que me surpreendeu para além de seus méritos: a extrema melancolia profunda de seus personagens… Quase como se os fantasmas chegassem a ser um alívio ou ao menos um mea culpa em admitir e abraçar logo a desgraça que cada personagem carrega em se sentir responsável por si ou pelos erros dos outros… Mesmo que a história gire em torno de uma família em duas linhas temporais (tipo um “This Is Us” de horror psicológico), uma família aparentemente unida no passado e desunida no futuro, são personagens satélites fora da órbita de suas próprias vidas, com péssimas habilidades de comunicação e sociabilidade. E pior do que culpar tudo isso nos fantasmas, eles culpam a si mesmos e a dificuldade de auto superação, restando apenas se remoerem até que seus dramas eclodam em catarses letais…

E isto não é um demérito, e sim um trunfo. As assombrações na verdade dão até certo alívio, pois permitem personagens em sua maioria muito bem escritos e complexificados a enfim se soltarem em liberdade das próprias amarras a sentir algo. Sentir alguma coisa! O maior “medo”, por assim dizer, já que podemos atrelar a palavra “medo” ao gênero de horror psicológico aqui explorado, é justamente o “medo” de jamais conseguir se libertar da própria tristeza. Os piores fantasmas são eles mesmos. Quase como se a série fosse uma grande sessão de psicanálise coletiva para os personagens e espectadores. Uma sessão às vezes contrita, noutras violenta, mas sempre melancólica, como se não sobrasse alternativa senão confessar seus piores medos e pesadelos para si mesmo, e você se visse duplicado no espelho da cadeira do terapeuta a lhe atender…

Acho curioso quando leio publicidades da série dizendo: “melhor série de terror já feita” ou “o medo é a receita do sucesso”… Isso porque não sei o quanto quem afirma isso esteja ou não acostumado com o gênero. O fato é que a série acaba sim dando certo não porque excede a expectativa do terror ou do medo, até porque a menor preocupação dela em geral é o medo. Ela se realiza de fato quando estabelece um vínculo emocional eficiente com seus personagens de modo a fazer com que nos importemos e nos preocupemos com eles, com suas perturbações. Passamos a entendê-los e torcer junto com eles para que superem suas maiores tristezas e que, ao superá-las, vale a pena viver.

A reviravolta mais surpreendente da série, por exemplo, ao menos ao meu ver, é justamente esta propriedade metafísica dos fatasmas se colocarem além do espaço-tempo, onde passado, presente e futuro se unem através da própria família principal da série que parece sempre ter feito parte da casa, mesmo antes de chegarem ou depois de partirem e voltarem… A extrema melancolia destes personagens tão sensíveis e ao mesmo tempo sensitivos para as agruras do mundo acionou os pontos nevrálgicos da casa, pontos que talvez outra família não tivesse acionado. Como se naquele momento fictício de fusão entre todos eles a casa significasse o umbigo do mundo onde todas as energias fluíssem, através daqueles representantes de cada virtude e cada defeito que o ser humano pudesse simbolizar e torná-lo único.

E isto é interessante, por que mesmo que a série seja adaptada de um livro homônimo de 1959 escrito por Shirley Jackson, o qual outrora gerou várias versões para o cinema, a dilatação temporal narrativa em capítulos que apenas um seriado poderia gerar perante um filme é o que ironicamente mais aproxima esta obra de volta para o livro… Sem contar que, se levarmos em consideração ainda o formato único de lançamento de uma série na Netflix, onde todos os episódios são disponibilizados simultaneamente, como um risco único, ao invés de se delongar semanalmente por meses através de picos e declínios de audiência caso toda semana não se reinvente, é louvável o empreendimento em desenvolver mais a interiorização de seus personagens humanos do que a exteriorização dos sustos (“jump scares”) de seus personagens fantasmagóricos… Até porque, como disse antes, os mais assustadores aqui são os vivos…quem perambula à deriva sem voz ou liberdade, sempre presos e mal resolvidos como um alerta ao espectador.

Não que a parte técnica tenha deixado a desejar…, ainda que a mise-en-scène do passado escolha um caminho bem mais teatral, com cores berrantes e objetos de cena menos plasticamente sutis (em oposição ao presente sóbrio e mais interpretativamente psicanalítico). Algo que uma provável continuação provavelmente iria reverter o peso na balança e trazer a mise-en-scène mais pantomímica para o futuro da mesma forma que os dois tempos de obras como “It – A Coisa”. E até sobram para os fãs curiosidades e “easter eggs” (expressão americana que quer dizer ovos de Páscoa, representando segredos escondidos na série) que valem a revisão, como honenagens a outros filmes de “Titanic” a “Os Inocentes” e até mesmo vários fantasmas escondidos em cenas menos óbvias. Mas nada disso prenderia o espectador se apenas o conceito visual vendesse a série na dianteira da proposta. São personagens que nos conectam em suas tristezas contemporâneas que nos prendem até o final em nossa primeira visita à Residência Hill.

A verdadeira pergunta que fica, então, é por que esta tristeza imensurável e infinita onde podemos mergulhar e nos afogar consegue se comunicar tanto com o espectador atual e não repelí-lo… Talvez sejam os tempos em que estamos vivendo, talvez seja a nossa forma de nos apossar da nossa própria sensação de luto e dominá-la. Luto de algo que sentimos ter morrido ou sido tirado de nós mas sem tempo de prantear… Como algo imaterial ou abstrato que, ao mesmo tempo, é extremamente concreto. Cru. Visceral. Como os fantasmas da Residência Hill…não, não como os fantasmas. Como a família que lá residiu e nunca superou seus fantasmas que os acompanham porque não conseguimos enunciá-los, nomeá-los. Quem sabe um dia entre gritos e sussurros de terror consigamos reivindicar nossa voz de volta e a tristeza possa vencer o medo desse estado aparentemente permanente de letargia enlutada. Queimem a casa, incendeiem os fantasmas. Encontre o fogo que reside em você também.

Confiram alguns fantasmas escondidos:

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