A Moça do Calendário

Ponto-chave de ligação de toda a curadoria do 50º Festival de Brasília

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02 de outubro de 2017

A sexta noite do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro começou com a exibição hors-concours de “A Moça do Calendário” de Helena Ignez, com Djin Sganzerla e André Guerreiro, que brilham intensamente com atuações inspiradas na adaptação de roteiro original deixado para se realizar um curta-metragem pelo saudoso Rogerio Sganzerla, e que agora Helena ampliou para um longa-metragem. Sem falar em uma fusão com o livro “A Sociedade do Cansaço”, do coreano-alemão Byung-Chul Han, que também serviu de fonte de inspiração. E, com uma incrível percepção social de vozes e direitos ante uma repressão política conservadora que se está vivendo, o filme transgressor e libertário foi aclamado. Pois é interessante encará-lo dentro de um quadro maior da curadoria narrativa do Festival, que literalmente está contando uma história com os filmes e a ordem com a qual eles estão sendo exibidos, como se dialogassem uns com os outros, dentro ou fora da competição. Curiosamente ou não, pareceu que “A Moça do Calendário” foi o ponto-chave assumido que cola todo o mosaico narrativo deste 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

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O filme é uma verdadeira aula magna de Helena Ignez, Djin Sganzerla e André Guerreiro sobre a câmera-corpo na direção de fotografia de filmes feitos por cineastas-atores, que incluem a presença de quem opera a câmera no laboratório de atuação junto com o elenco, como mais um ator em cena. Até porque a corporalidade empregada por André Guerreiro em seu protagonista, que guia a trama como fio condutor, advém não apenas de já ter atuado antes como parceiro frequente nos filmes e peças de Helena, às vezes invertendo o jogo de cena e dirigindo a cineasta também, como atualmente no teatro com “Tchekhov é um Cogumelo”, mas como já foi até mesmo diretor de fotografia do longa-metragem de estreia dela, “Canção de Baal”. E por tudo isso, por toda esta troca constante, o acompanhamento da narrativa é tão visceral e pode se permitir anárquico por essência.

Enganam-se aqueles que pensam que anarquia como a citada acima tem alguma coisa a ver com liberdade total e ausência de regras num caos absoluto. Este é o uso deturpado do senso comum que começou a ser utilizado desde que o marxismo foi aplicado de formas não exitosas pelo comunismo e ditaduras stalinistas… Mas o modo idealizado de organização social, com harmonia social horizontalizada seria uma auto-governança paritária de todas as semelhanças e diferenças. E é este modelo que talvez nunca tenha sido visto ainda aplicado de forma eficiente… até agora. Pois os filmes de Helena Ignez em formato cooperativo, de modo sinergético, conseguem não apenas falar sobre temas emancipatórios, mas também envolverem a emancipação na sua própria constituição realizadora. É por isso que não estranhamos ver seu universo ser povoado de todos os tipos e gêneros e espécies de seres vivos. Uma humanidade riquíssima de diferenças a conviver no mesmo espaço, e conjugar harmonia conquistada mesmo quando inseridos em desarmonia originária.

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E talvez esta seja uma das principais evoluções e distinções da linguagem própria da cineasta para os trabalhos que havia construído junto de seu saudoso parceiro Rogerio Sganzerla e do outro vértice do triângulo criativo na Produtora Belair durante a década de 70, pois sua pegada autoral no Cinema Marginal moderno conseguiu transcender a aparente barreira do lugar de fala. Se já houve dúvida de quem poderia fazer filmes sobre quem, se o Cinema Novo teria ou não abusado de seu lugar de fala ao se apropriar das vozes periféricas sem lhes dar representatividade para além de representação. a forma anárquica de Helena supera a palavra “sobre” e compartilha a palavra “com”. Ao invés de Helena fazer filme sobre pessoas ou vozes e lugares, ela faz com as pessoas, com suas vozes em uníssono à dela, e com os lugares onde estão. Cada qual podendo falar junto com seu filme. Esta talvez seja uma das maiores contribuições que uma das maiores atrizes da história de nosso cinema e hoje em dia uma das maiores cineastas e potências criativas poderia nos presentear.

No entanto, poderia haver uma falha paradoxal nesta tese sobre sua obra. Cinema, mesmo alcançando harmonia, é sinônimo de tensão. Imagens em movimento são tensões sequenciais de justaposição ou contraposição de polarizações. Nem todas as imagens podem ser apenas positivas ou só negativas, e podem expressar significâncias diversas dependendo da ordem como são dispostas. Em seu maior triunfo ímpar anterior, o longa “Ralé”, Helena Ignez já havia alcançado um difícil equilíbrio entre um filme-manifesto e um libelo em quebrar correntes sociais. Ao invés de mostrar agruras ou injustiças na tela, ela evidencia o absurdo de suas contradições ao verbalizar palavras e personagens que quebram o discurso tirano e conservador dos novos tempos que se esvai e não consegue subsistir. Sem falar que usa da metalinguagem dos filmes de Rogerio Sganzerla projetados na tela dentro da tela para seus personagens os reencarnarem como novos, inclusive a sia mesma em dois tempos distantes e ao mesmo tempo simultâneos, quando ela retoma sua famosa personagem Sonia Silk de “Copacabana Mon Amour” como diante de um espelho de si.

Agora, com “A Moça do Calendário”, ao adaptar um roteiro de Sganzerla baseado em contos de Luis Antonio Martins Mendes e estendê-lo, é como se víssemos o protagonista que o saudoso diretor havia idealizado ganhar vida no universo próprio de sua musa e parceira criadora. Tanto que o protagonista de André Guerreiro, Inácio, parece preso num tempo de desesperança ou indiferença calejada que entrega sua concepção como sendo um típico brasileiro subversivo do pós Golpe Militar. Cheio de defeitos e falhas e dúvidas. Porém, são suas falhas o diferencial aqui. As arestas propositais. O universo onde ele transita é vivo e mutante, atual, que se importa. A indiferença de Inácio não consegue permanecer fria por muito tempo em tanto calor humano, mudando-o ao mesmo tempo que sendo mudado por ele. Helena convida os indiferentes e as oposições de seu mundo a se importarem e compreenderem o outro. E ele vai aprendendo mais sobre si como se conseguisse se auto perceber no mundo: um fantasma que poderia existir nos tempos da Ditadura e que receia que aqueles tempo voltem, por isso se protege numa couraça grossa, aparentemente impenetrável para sua esposa, seus amigos de trabalho, seu chefe abusivo (sempre retratado em P&B), e até mesmo para seus próprios sonhos. Como se mostra no genial cenário de espelhos na clínica neuronal do exame de esperma (parte do filme inspirada no livro “Sociedade do Cansaço”) ou quando Inácio passa a interpretar o gestual do famoso personagem brasileiro Zé Bonitinho (Jorge Loredo), também habitante dos filmes de Sganzerla projetados dentro do filme, junto de outras figuras míticas de Carmem Miranda a Grande Otelo, como se em sendo cinema, nós o povo pudéssemos ser qualquer coisa que almejarmos.

Pois é isso o que a moça do calendário é. O sujeito moça de um calendário, e não o objeto do título “A Moça do Calendário”, interpretada como uma ninfa grega por Djin Sganzerla: ela é a capacidade do próprio sonhar. Djin já havia interpretado outras entidades etéreas como em “O Prefeito” de Bruno Safadi, mas ela aqui ganha um alter ego de carne e osso que encontra o eu do sonho. Uma ativista pró reforma agrária e pró direito à moradia, que une os personagens periféricos e os direitos das minorias em um coletivo mais forte e maior, porque todos têm direito a pelo menos ter um sonho onde morar sobre suas cabeças. Assim como o filme o faz com o espectador. Assim como sua existência na curadoria o faz com o 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Em meio a todas as agruras vividas no tempo atual, de Golpes Parlamentares e restrições de direitos fundamentais, Helena nos devolve a capacidade de sonhar, com todas as nossas imperfeições e erros.