A Noite Devorou o Mundo

Filme de estreia de cineasta francês mistura terror e drama num filme de zumbis, mas não consegue se aprofundar tão bem como pretendia

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06 de julho de 2018

Terror é um gênero não muito explorado na França pelos cineastas para contar suas histórias, que costumam preferir bem mais o drama e a comédia. Apesar de pouco conhecidos e falados, alguns dos filmes de terror franceses figuram entre listas de filmes mais pesados e traumatizantes, como é o caso de “Irreversível” (2002), “A Fronteira” (2007), “A Invasora” (2007), “Mártires” (2008) e o recente “Raw” (2017). “Entre os Vivos” (2014) e “Vingança” (2018) são mais alguns exemplares que merecem destaque. Felizmente, o preconceito dos festivais de cinema mundo afora e do próprio público em relação a longas de terror está caindo e cada vez mais novos cineastas estão apostando em filmes de gênero. Seguindo esta tendência, o jovem cineasta Dominique Rocher faz sua estreia com “A Noite Devorou o Mundo”, longa de zumbis com uma boa dose de drama existencialista ao estilo francês.

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Sam (Anders Danielsen Lie) acorda pela manhã no apartamento da ex-namorada, onde aconteceu uma festa na noite anterior, e percebe que está sozinho em meio a uma população de zumbis. Confuso e apavorado, ele começa a se organizar para se proteger e sobreviver. A dúvida que persiste é se ele realmente é o único que restou vivo. Baseado no livro homônimo Pit Agarmen, “La nuit a dévoré le monde” (no original) não é um filme tradicional de mortos-vivos. Rocher utiliza o apocalipse zumbi como plano de fundo para um estudo sobre a solidão na sociedade contemporânea. Ao misturar terror e realismo, o longa se aproxima de “Náufrago” (2001) no aspecto da angústia causada pelos sentimentos de isolamento e inércia, e ainda deixa espaço para uma homenagem ao pai dos zumbis George Romero, que faleceu há 1 ano. O zumbi Alfred, interpretado por Denis Lavant, ator-fetiche de Leos Carax, possui a mesma característica domesticada/humanizada do zumbi Bub de “Dia dos Mortos” (1985), além de ser uma espécie de ‘Wilson’ de Sam, já que passa a ser o único ser a lhe fazer companhia e ouvir seus lamentos numa Paris deserta de humanos.

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A premissa de que parte o roteiro escrito a seis mãos por Rocher, Guillaume Lemans, que escreveu o roteiro de “O Último Suspiro”, e Jérémie Guez, que colaborou no roteiro de “Carnívoras” – ambos longas-metragens que também participaram do Festival Varilux de Cinema Francês 2018 junto com “A Noite Devorou o Mundo” –, é interessante face à tendência individualista crescente que estamos vivendo, mas perde força ao não ser tão bem desenvolvida. A impotência que Sam sente diante da situação o leva a um comodismo que se arrasta durante todo o segundo ato e parte do terceiro ato do filme. Anders Danielsen Lie (de “Oslo, 31 de Agosto” e “Personal Shopper”) está competente no papel de Sam e consegue despertar empatia no espectador. Em participações especiais, Lavant é um perfeito Alfred e Golshifteh Farahani (“A Pedra de Paciência”, “Dois Amigos” e “Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar”) aparece muito pouco como Sarah, mas com boa interpretação e uma pequena surpresa. “A Noite Devorou o Mundo” é, na verdade, um estudo de personagem e da solitude humana que utiliza um apocalipse zumbi como cenário, algo que Romero já fazia em seus filmes, porém com mais profundidade, violência e ação, como os fãs do gênero gostam.

 

Festival Varilux de Cinema Francês 2018 – A Noite Devorou o Mundo (La nuit a dévoré le monde)

França – 2018. 93 minutos.

Direção: Dominique Rocher

Com: Anders Danielsen Lie, Denis Lavant e Golshifteh Farahani.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 3