A Noiva do Deserto

Impossível não se apaixonar

por

24 de outubro de 2017

Tudo bem, sempre que entramos numa sala de cinema estamos altamente suscetíveis a isso. Nem sempre é fácil, pois nem todas as vezes conseguimos adentrar nesses novos mundos que nos são projetados com a guarda baixa, totalmente disponíveis para sermos atropelados sem aviso. E era o final de um dia cansativo, a parcela crítica já não havia dormido de tanto escrever sobre os acachapantes filmes de ontem que nos lembram da sensação de que a Mostra de São Paulo nos traz completamente diferente do Festival do Rio. O segundo é pop, mas o primeiro é cult, e faz toda a diferença na hora de encher salas se sobrar um assento vazio ou de formar filas intermináveis até para filmes menos badalados. Quanto mais alternativo e desconhecido na Mostra, melhor, e as pessoas se engalfinham para assistir apostas novas.

MV5BN2U5ODBjNDMtODkwYS00MTE4LWJkNGEtZWNjYjlhMmFlM2U3L2ltYWdlL2ltYWdlXkEyXkFqcGdeQXVyMjMxMDI0MDM@._V1_-e1497995132431

Por isso mesmo, no final de uma segunda-feira lenta, de filmes não muito surpreendentes, e com uma sessão que, além de atrasar por defeito no projetor, ainda estava parcialmente vazia em horário nobre, que fomos pegos em total surpresa pelo improvável. Cair de paixão por “A Noiva do Deserto” de Cecilia Atán e Valeria Pivato, coprodução entre Argentina e Chile. Como pode uma simplicidade tão extrema se desdobrar em algo singelo e arrebatador ao mesmo tempo? Começar com momentos de tensão angustiante, sem saber para qual direção o filme iria tomar, ou qual gênero cinematográfico adotaria, e se encaminhar para desvios e caminhos de emoções verdadeiras…?

9037

De pronto, um rosto familiar nos conduz. Há quem irá reconhecer de imediato a atriz que protagoniza “A Noiva do Deserto”, Paulina Garcia, diva do inesquecível sucesso “Gloria”, produzido pelo gênio Pablo Larraín e dirigido por Sebastián Lelio (atualmente em cartaz no Brasil com o excelente “Uma Mulher Fantástico”). A atriz se encontra presente na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em mais de um filme na grade, também com o potencial pop de “As Cordilheiras” de Santiago Mitre, onde coestrela com o muso argentino Ricardo Darín. Mas aqui em “A Noiva do Deserto” ela ganha espaço para fazer o que sabe melhor, dominando a tela como poucas. Na verdade, pode parecer um choque de início para quem a viu tão vigorosa em “Gloria”, pois agora ela recebeu certo grau de envelhecimento para interpretar esta mulher abnegada que serviu como empregada/babá a vida inteira a uma família abastada, e que viu a criança da casa crescer como se fosse sua até casar e se mudar. Um ato corajoso da atriz em cada vez mais desmistificar estereótipos da terceira idade para além dos arquétipos vendidos socialmente de forma reducionista, e mostrando uma intensidade gigante no reaprender a viver.

MV5BMGQ1NGUyZTQtN2M1NS00MDE5LWIzNWYtNzJmOWQ0YTgzNTU2L2ltYWdlL2ltYWdlXkEyXkFqcGdeQXVyMjMxMDI0MDM@._V1_-e1497995119342

Quem sentiu um gostinho de “Que Horas Ela Volta?” de Anna Muylaert não se enganou, pois até algumas técnicas de câmera parecem ter sido absorvidas do sucesso brasileiro para falar de diferença de classes no emprego doméstico: Quando acompanhamos flashbacks dela servindo aquela família como se fosse sua, a personagem de Paulina adentra os quartos e espaços sem que a câmera a siga, pois não possui permissão de entrar no quarto alheio, como se fosse um olhar estranho porta afora. Mas não é só do passado de seu trabalho que a narrativa consiste. Na verdade, a maior parte da trama se passa no deserto, pois perde sua mala de mudança para a nova casa onde trabalhará e é obrigada a perambular em condições extremas por auxílio em encontrar aquela pequena maleta que contém toda a sua vida de concessões e despersonalização de si própria. Sob o sol escaldante do reencontro consigo mesma, nos amplos planos abertos de montanhas e ondas de calor da fotografia de Sergio Armstrong, que tiram do foco qualquer coisa que não esteja em imediato primeiro plano, a protagonista reduzida ao tamanho de uma formiga perdida vai rever seus conceitos de essencialidade do ser.

Todo este capricho visual não é à toa. Ambas diretoras estão estreando na direção com este exemplar, porém possuem larga experiência como assistentes de direção, revisoras de roteiro, fazendo casting e etc. Cecilia Atán já havia trabalhado em inúmeras séries de TV e Valeria Pivato foi assistente de direção de Juan José Campanella desde antes da notoriedade com seu primeiro sucesso mundial, “O Filho da Noiva”, até o cult “O Segredo dos Seus Olhos”. Mas é para além da técnica aplicada que reside o segredo das duas, como com a direção de atores e a condução do ritmo montado com excelência por Andrea Chignoli, através de códigos sonoros nas passagens de cena. Isto costura o efeito esfumaçado dos enormes planos de fundo desfocados no deserto em contraposição com o foco imediato, que cegam o espectador sobre quem estaria vindo na direção da personagem, pois tudo o que temos é a visão a partir do ponto de vista do cocuruto de sua cabeça, até que ela venha a se aproximar dos seres que lhe orbitam.

Vale ressaltar que a química de Paulina com seu coprotagonista interpretado como uma caixinha de surpresas por Claudio Rissi é um grande trunfo, advindo daí cenas imprevisíveis que nem personagem nem espectador sabem mais no que confiar e como prever… Até que já seja tarde demais e se tenha sido totalmente envolvido pelas mudanças drásticas de ênfase e clima, em cenas finais para ficar na memória, e no coração por muito tempo.

O filme foi indicado na Mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes 2017, além de ter concorrido também no Philadelphia Film Festival, San Sebastián International Film Festival etc…