A Nossa Espera

Filme franco-belga sobre paternidade é um dos mais necessários e obrigatórios do ano

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06 de janeiro de 2019

Muito se tem discutido sobre a paternidade, o papel do pai na criação dos filhos, a sobrecarga feminina e a divisão das tarefas domésticas entre marido e mulher. É natural que tais temas sejam também levados a debates no cinema devido à sua importância no mundo contemporâneo e “A Nossa Espera”, segundo longa-metragem dirigido por Guillaume Senez (“9 Meses”) cumpre muito bem este papel. Após Laura (Lucie Debay) desaparecer de um dia para o outro sem dar explicações, Olivier (Romain Duris) se vê perdido no trato com os filhos Elliot e Rose, a rotina da casa e as demandas de seu trabalho, onde faz parte do sindicato. Diante da nova e inesperada situação, ele e os filhos precisam aprender a se adaptar para alcançar um equilíbrio enquanto esperam um possível retorno de Laura.

Com roteiro de Guillaume Senez e Raphaëlle Desplechin (“Gauguin: Viagem ao Taiti” e “O Que as Mulheres Querem”), “A Nossa Espera” é um filme sobre a paternidade, as responsabilidades de ser pai e a falta de preparo de imensa parte dos homens em exercer de fato este papel. A figura de Olivier é uma perfeita representação deste homem, infelizmente, tão comum ainda hoje na nossa sociedade machista: sem Laura, ele fica completamente desnorteado sem saber como cuidar dos filhos e de suas necessidades. Antes, sua única preocupação era sair bem cedo para trabalhar e voltar bem tarde para casa sem precisar cuidar de nada, apenas descansar, mal tendo tempo para interagir com a família. Sozinho, não sabe nem quais as roupas de cada criança ou sequer preparar qualquer refeição que não seja cereal com leite. Recorre a ajudas, claro, femininas – a mãe e a irmã –, mas quando o relacionamento com os filhos começa a piorar cada vez mais ao ponto da filha mais nova parar de falar e de fugir com o irmão, Olivier percebe que precisa mudar sua atitude e deixar o sofrimento de lado para finalmente ser pai. Um fato muito interessante também abordado no longa é a relutância masculina a falar dos sentimentos e, mais ainda, a fazer terapia; e, vindo de um diretor e roteirista homem, torna-se ainda mais forte.

Ainda que a família seja o centro do filme, Senez também aborda rapidamente problemas pessoais de colegas de trabalho próximos de Olivier, para mostrar que toda família tem seus problemas e que é preciso superá-los para seguir em frente. O título original “Nos Batailles” (nossas batalhas, em tradução livre) ilustra muito bem a intenção do cineasta com sua obra, pois todos travam a sua própria batalha diária, muitas vezes sozinhos e sem ninguém saber. Por isso, Senez trata de todas as questões que aborda com muito respeito, sensiblidade e sem julgamentos, porque já basta a sociedade ser tão julgadora com os problemas do próximo. “A Nossa Espera” é um filme extremamente necessário e obrigatório a todo ser humano que respira. Evoluir é preciso.

 

Festival do Rio 2018 – Expectativa 2018

A Nossa Espera (Nos Batailles)

Bélgica / França – 2018. 98 minutos.

Direção: Guillaume Senez

Com: Romain Duris, Lucie Debay, Laetitia Dosch e Laure Calamy.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4