A Paz Perpétua

Espetáculo de arte pura, reflete a nossa sociedade e o papel do ser humano em toda esta obscura engrenagem

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19 de fevereiro de 2017

Em cartaz no programa Funarte Verão 2017, no Teatro Dulcina, “A Paz Perpétua” é um dos espetáculos mais impressionantes do ano de 2016. Este, é um daqueles projetos que saem colados em nossa mente e gruda em todos os nossos pensamentos. Ele discorre sobre a condição do homem, e dos seres mais cúmplices e fiéis, deste mesmo homem, que são os cachorros. Difícil não sair do teatro absolutamente em suspensão dos sentidos, e ao mesmo tempo com os dois pés fincados no chão, afinal somos bípedes, apesar de que muitos ainda estejam para quadrúpedes. Não no mal sentido é claro. Apenas no que diz respeito a uma ferocidade desmedida e irracional, guiada mais pelos maus sentidos, e por assim dizer longe do instinto animal genuíno de um cachorro, por exemplo. “A Paz Perpétua” é uma fábula teatral protagonizada por cachorros: Odin, Emanuel e John-John, que disputam, através de um misterioso processo seletivo liderado pelo cão Cassius e pelo Humano, a prestigiada “coleira branca”, que só é dada à elite canina de combate ao antiterrorismo. O texto de Juan Mayorca passa justamente por alguns desses objetivos, quando resolve escrever uma obra para humanos cachorros ou seria para cachorros humanos? Onde razões, emoções, cálculos, instintos, força, são medidas a todo o tempo, entre o mundo racional e irracional, em um texto de tradução clara, vigorosa, inteligente, perspicaz e altamente filosófica de Aderbal Freire-Filho. O texto, tem uma correspondência com a obra “A Paz Perpétua” de Immanuel Kant, seja ele em toda a sua essência, ou meramente na menção do nome de uma das personagens ser justamente, e não por acaso, Emanuel “Cãont”, e também o número de três cachorros que lutam pela coleira branca. A obra de Kant, filósofo do iluminismo, aborda três formas de direito sobre os Estados, para a garantia da paz duradoura. Assim, segundo ele, há o direito das gentes dos Estados, nas suas relações recíprocas, que determina o que é justo segundo unidades do poder e não segundo leis exteriores. Para ele estas limitam a liberdade das pessoas, o direito político exercido pelo povo no Estado, e o direito cosmopolita, aquele que entrega condições de hospitalidade universal. Conforme o autor, a todo o estrangeiro que se comportar amistosamente não deve ser tratado com hostilidades devido à sua vinda em território de outros. Caso contrário, isso implicaria em estado de natureza, fato que contradiz a implantação da paz. É uma obra clássica que traz elementos fundamentais para a preservação de uma paz duradoura, ou seja, uma linha de elementos para os indivíduos saírem realmente do estado de natureza. Esses elementos seriam as leis de natureza, pois não são propriamente declarados, existem e devem ser respeitados pelo Estado para assim, esses, terem a garantia da própria vida, da paz. Na peça temos um grande embate, quase que um ringue ou uma luta de cachorros. Onde tensão e mudanças repentinas de espaço – próprias dos cachorros -, vão se alternando com inteligência e construção dramatúrgica de um alto grau de complexidade filosófica, que é muito bem esmiuçada pela fluida e bem construída tradução de Freire-Filho. Questões preciosas e sublimes sobre diversos conceitos de vida, de conduta e de vida em sociedade; que é organizada pela ótica e percepção dos caninos, e de uma metáfora de “mundo cão”; e da paz, na coleira branca a ser almejada!

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Os cães Alex Nader como Cassius, José Loreto como John-John, e João Velho como Odin: em cena de “A Paz Perpétua”. Foto de Nill Caniné.

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Toda a concepção estética é realista e não apresenta nenhum arroubo ou firula cênica. Foto de Nil Caniné.

A direção de Freire-Filho é impressionante na sustentação da força do conjunto do elenco “cachorrar”, em um equilibro muito grande entre um fortíssimo texto e uma potente atuação. A cenografia de Freire-Filho, o figurino de Antônio Medeiros e a luz de Maneco Quinderé são simples e realistas, assim como a trilha sonora pontual de Tato Taborda. Nenhum arroubo estético ou firulas de encenação dos atores. O foco total é centrado no binômio texto x atuação. Deixando assim um terreno fértil para o desenvolvimento de um ótimo trabalho de dramaturgia e interpretação. É sublime o trabalho de José Loreto como Jhon-Jhon, e toda a sua meticulosidade no gestual do seu cachorro. Os tempos dramáticos, as mudanças bruscas, os rosnados e toda a fiscalidade expressiva. Uma entrega absoluta! Fazendo dele o mais cachorros dos cachorros. Parecendo claramente uma proposta de fazer do cachorro mais geneticamente misturado, o mais cão de todos. O mais instintivo de todos. Ficando as boas composições de João Velho como Odin, em uma mescla de humano e animal, e a de Emanuel vivido por Kadu Garcia, o mais humanizado de todos. Ficando o papel de Alex Nader como o interlocutor entre os dois mundos, que os separam dos animas, e do humano, vivido por Gillray Coutinho.

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O Homen (Gillray Coutinho) e o seu cão (José Loreto) como John-John, em cena de “A Paz Perpétua”. Foto de Nill Caniné.

“A Paz Perpétua” é uma excelente metáfora ao que vivemos hoje no Brasil. Diante de um governo golpista – legalmente amparado pelo nosso Supremo Tribunal Federal -, somos postos a prova, a todo tempo, e tendo que decidir qual o melhor caminho a se seguir para conquistarmos a nossa “coleira branca”: o da força, da violência, da ação concreta? Ou o da construção lenta, do diálogo, do verbo, da superação pela lógica e pela inteligência pura dos fatos? Os pelos dois? Será que a escolha de um deles é a escolha certa, ou a única solução? Por tudo isso, “A Paz Perpétua” é um espetáculo que credencia o teatro ao seu melhor papel de arte pura, na reflexão de nossa sociedade e do papel do ser humano em toda esta obscura engrenagem.

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João Velho como Odin, Kadu Gracia como Emanuel e José Loreto como John-John, em cena de “A Paz Perpétua”. Foto de Nill Caniné.

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 5