A poética do assombro de Miguel Vellinho

Poema de Heiner Müller rende ao CCBB uma das experiências sensoriais mais radicais do teatro brasileiro (e da arte da performance... e da videoarte... e do jornalismo de guerra) do ano, pelas mãos e pelos bonecos da Cia PeQuod

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23 de novembro de 2018

3006_ccbb-jpg 777 A última aventura é a morte Velinho

Rodrigo Fonseca
Tem um negócio ali no CCBB, apresentado numa sala dedicada a peças de teatro, definida como um espetáculo, mas que, na prática (e no esplendor sensorial que gera) é uma esfinge com desenho animado, videoarte, bonecaria, trechos de vídeos, encenações e imolações, além de uma relação direta com o (ainda) monumental “Mephisto” (1981), de  István Szabó. Vertigem é a tônica do garimpo de sensações e inquietações provocado pela Cia. PeQuod, na direção de Miguel Vellinho, ao longo da gira batizada de “A última aventura é a morte”. Segue em cartaz por mais uns dias no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, onde se impõe como uma das experiências estéticas de maior ousadia e mistério deste ano. Sua linha de pesquisa vem de um poema escrito em dias de agonia pelo dramaturgo alemão Heinr Müller (1929-1995). Sente mais ou menos como é a linha poética dele:


No ecrã, um soldado inglês

a contar cadáveres numa aldeia da Bósnia.

Ele chora sob o elmo azul. Ao observá-lo de mais perto,

vejo como os seus maxilares se contraem,

um lobo que mostra os dentes,

a careta da sua última saudação à humanidade.
Entra-se no Teatro III do CCBB ali pelas 19h30 por um cenário onde as atenções se viram por 360º de narrativas, na qual somos bombardeados por imagens da violência bélica em Abu Ghraib: ali, a podridão do mundo fede à exclusão, num fedor maior do que aquele exalado na Dinamarca de “Hamlet”. É o cheiro que palavras não traduzem: daí um jorro imagético e uma ritualística de corpos cujo léxico é o da perplexidade. Vemos um ator sob uma maquiagem fantasma à la Mephisto: o saltimbanco que inspirava o filme de Szabó é alvo das reflexões de Müller. Este ator de face fantasma é rodeado de polifonia: imagens de arquivo de guerra, heróis de animação, uma cena de Sylvester Stallone em “Rambo II: A missão” (1985), bonecos. São prosopopeias costuradas para produzir um debate (físico) sobre a institucionalização da intolerância.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5