A Ponte dos Espiões

Análise sobre a paranóia que assolou a América na década de 50

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23 de outubro de 2015

Em “A Ponte dos Espiões” (Bridge of Spies) Spielberg debruça-se sobre a Guerra fria para fazer uma espécie de análise sobre a paranóia que assolou a América na década de 50. O medo do comunismo e de sua influência na sociedade norte americana foi tão grande que chegou ao ponto das escolas exibirem para as crianças que juravam lealdade a bandeira, imagens aterradoras sobre os efeitos da bomba atômica. Em 1957 (data que o filme é ambientado), Spielberg tinha 11 anos e poderia ser tranquilamente um daqueles meninos que cresceram com a idéia que a segurança de seu país estava ameaçada pelo “comunismo do mal”. A imagem do herói solitário e do bom moço que enfrenta a oposição e a obsessão pela guerra (temas recorrentes em sua filmografia) é a comprovação da formação patriótica do diretor (e que atingiu seu ponto máximo em “Lincoln”, seu filme-tese).

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Escrito por Matt Charman e pelos irmãos Coen, “A Ponte dos Espiões” tem todos os elementos que fizeram de Spielberg um grande realizador. Uma boa e tradicional história dramática calcada em fatos históricos, uma estupenda equipe técnica (destaque para a fotografia esfumaçada de Janusz Kaminski, constante parceiro do diretor) e um elenco competente. Mas o que mais chama a atenção é a capacidade de Spielberg em contar várias histórias em apenas um quadro. É o caso da sequência, logo no início, quando o espião russo Rudolf Abel (Mark Rylance) faz seu auto-retrato. Do lado esquerdo da tela, sua imagem refletida no espelho e do lado direito, seu retrato pintado a óleo. No meio, o homem de costas. Este simples enquadramento resume boa parte da trama que se apóia no conflito do individuo que não reconhece sua identidade e está indeciso entre qual caminho tomar. Conflito este compartilhado pelo competente advogado James Donovan (Tom Hanks), envolvido em uma ingrata missão sem o apoio da opinião pública e de sua família.

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Quem conhece a obra do diretor, vai perceber que as engrenagens que enviam informações e revelam emoções são quase sempre as mesmas. Portanto quando vemos o dedo do piloto tentando alcançar o painel da aeronave em plena queda, nos lembramos do dedo luminoso de “ET” ao tentar voltar para casa. Ou no clímax final, quando a angustiante espera para a troca dos espiões nos remete a expectativa do contato alienígena em “Contatos Imediatos do 3º Grau”. São os mesmos conceitos esculpidos em diferentes situações, algo que só um compositor que conhece muito bem seus acordes consegue realizar.

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Portanto, “A Ponte dos Espiões” é exatamente aquilo que esperamos de Spielberg que, com seu admirável talento, transmuta a paranóia de uma nação em um acordo otimista repleto de esperança.

A Ponte dos Espiões (Bridge of Spies)

Eua, 2015. 141 min.

Direção: Steven Spielberg

Com: Tom Hanks, Mark Rylance, Alan Alda, Victor Verhaeghe


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