‘A Praça é Nossa’ da Marvel

Desrespeitoso com a mitologia do Deus do Trovão, 'Ragnarok' joga no lixo a essência épica dos filmes de super-herói em prol de piadinhas sem ritmo e de uma lógica sexista

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29 de outubro de 2017

MV5BMjMyNDkzMzI1OF5BMl5BanBnXkFtZTgwODcxODg5MjI@._V1_UY1200_CR90,0,630,1200_AL_.jpg Thor Ragnarok

Rodrigo Fonseca
Já nos “finalmentes”, 2017 é o ano do terror, vide os US$ 654 milhões acumulados por It: A Coisa e todo o prestígio (cercado de verdinhas) de Corra!, com sua reflexão racial. O esperado Jogos Mortais: Jigsaw, que chega às telas dos EUA neste Halloween, deve esquentar ainda mais a temperatura do Além. Mas também houve, no panteão dos exibidores de 2017, lugar nobre para os mais rentável dos nichos da década: os filmes de super-herói. Estes não falham… até agora: Mulher-Maravilha somou US$ 821 milhões; Homem-Aranha: De Volta ao Lar abocanhou US$ 879 milhões; o genial Guardiões da Galáxia 2  (melhor de todos) arrecadou US$ 863 milhões; e o western Logan papou US$ 616 milhões com sua sintomática de Rastros de Ódio. Esses números só mostram o quanto os filmes de super-heróis são o sustentáculo da economia cinematográfica. E estes são, por essência, épicas de autossacrifício: existem cordeiros que se oferecem à imolação em prol da Humanidade. Não existe humor na espinha dorsal desse gesto. Pode haver gargalhada como apêndice, como efeito de oxigenação da tensão, como um respiro para o que há de bruto na peleja do sacrificado contra a moléstia moral que o leva a se arriscar em prol de quem precisa de auxílio. Pode e deve, pois o riso é um convite ao carisma. Mas esse riso não pode superpor a essência das narrativas super-heróicas, cuja gênese  quadrinística vem da ação, da aventura, da adrenalina e não da troça. Tem quadrinho pra rir e tem quadrinho de super-herói. É assim desde as primeiras viagens galácticas de Buck Rogers, em janeiro de 1929: a pedra fundamental pop do filão. Mas o diretor Taika Waititi não entendeu isso muito bem quando finalizou o corte do histérico Thor: Ragnarok, o mais vazio dos longas-metragens da grife Marvel.

No desespero de dar ao conglomerado das bandas desenhadas um novo Deadpool – uma produção de US$ 58 milhões da Fox, que, em 2016, arrecadou US$ 783 milhões nas bilheterias -, o cineasta neozelandês resolveu substituir a seriedade épica comum aos vigilantes uniformizados por galhofas sucessivas: é piada atrás de piada, mesmo nos momentos em que elas são desnecessárias. O resultado beira um programa humorístico, um A Praça é Nossa no solo de Asgard. O problema: Deadpool é um personagem terciário, um coadjuvante dos X-Men decalcado do Homem-Aranha pelo quadrinista Rob Liefield, que ganhou fama por sua iconoclastia oportunista, coisa que não cabe na figura do Deus do Trovão. Há um detalhe que o senhor Waititi parece não ter percebido: Thor é uma divindade, com aura mítica, cujos feitos carregam uma metafísica próxima do Sagrado. Thor merece respeito. E suas revistinhas sempre alimentaram essa respeitabilidade, pois ela está na medula do herói nórdico. Sem ela, sobre apenas um herói caído. E um filme caidaço… Até porque… assim como Thor não é descartável como Deadpool, Chris Hemswoth tem um peso trágico em seu leque dramático que Ryan Reynolds nunca alcançará.

Nem Cate Blanchett se salva do mico

Nem Cate Blanchett se salva do mico

Hella

Realizador do marromeno O Que Fazemos Nas Sombras (2014), Waititi tem ralo domínio das dinâmicas de combate: seu cinema é chiste sob chiste. Por isso, Thor Ragnarok soa anacrônico como filme de super-herói. Parece uma comédia barata dos anos 1980, tipo um Sem Licença Para Dirigir (1988) com gente superpoderosa. O uso do Hulk beira o ridículo. O mais grave é o desperdício de uma personagem com ethos de tragédia, como Hela, a deusa da Morte. Nem Cate Blanchett salva sua figura, tendo algum diferencial apenas na sensualidade que injeta na vilã. O único ator que encontra aqui algum porto seguro é o fatigado Anthony Hopkins, na pele de Odin. Como este já desistiu de seu passado glorioso como intérprete, passando a desperdiçar seu vozeirão em qualquer bobagem, ele acaba se destacando aqui como jamais conseguiu nesta franquia asgardiana. Franquia cujo ápice veio em O Mundo Sombrio, de 2013, este sim um espetáculo divertido e tenso.

Mjolnir.png Thor Ragnarok

Com dramaturgia, num exercício de preguiça, Ragnarok é uma mistura de Odisseia com O Guia do Mochileiro das Galáxias: um Ulisses cheio de aretai cai numa jornada da qual não consegue sair, mergulhado num espaço sideral lisérgico, no qual se ouve Led Zeppelin. Essa mistura seria boa se o tempero do desvario não viesse excessivo, fazendo com que a cruzada de um deus para enfrentar a Morte em pessoa parecesse um episódio de Saturday Night Live. Pior que isso é a submissão de Waititi à lógica contemporânea do emasculamento, fazendo de Thor o que se chama hoje de homem difícil, ou seja, uma figura masculina destituída de sua potência. A destruição do martelo nas cenas iniciais é um signo de castração.

Hemsworth faz o que pode para entretar a plateia. Mas sob um martelo mais pesado que seu Mjölnir – o martelo da hipocrisia sexista – sobra a ele tomar catiripapos e sofrer humilhações. Por sorte, Mark Ruffalo e Idris Elba estão ali, respectivamente como o Dr. Bruce Banner e o porteiro divino Heimdall, para dar alguma dignidade ao filme. Mas a contribuição deles não isenta o cinema de super-herói da chacota. Sobra um filme indigno. Assim como o horror, como dito lá em cima, anda em alta, a comédia, como gênero, anda em baixa. Querem compensar essa queda de popularidade fazendo chanchada com os Vingadores. Cuidado: foi isso o que aconteceu com o cinema de ação, no auge do políticamente correto (anos 1990), quando Jackie Chan e Will Smith explodiram. E foi ali que aquele filão degringolou, até ser salvo por Sylvester Stallone na série Os Mercenários e por Vin Diesel em Velozes e Furiosos. Há que se ter atenção.

 

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 1