A Primeira Noite de Crime

O quarto filme da franquia “Uma Noite de Crime” desperdiça o potencial que tinha e parte literalmente para a ação

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28 de setembro de 2018

Quando James DeMonaco criou a franquia de terror e suspense “Uma Noite de Crime” (“The Purge”) há 5 anos atrás, as críticas sociais eram claras, embora nem tudo fosse verbalizado pelos personagens e tivesse ser entendido pelo contexto. Devido ao enorme sucesso do longa, DeMonaco escreveu e dirigiu duas continuações, intituladas “Uma Noite de Crime: Anarquia” (2014) e “12 Horas para Sobreviver – O Ano Da Eleição” (2016), aprofundando cada vez mais as suas críticas iniciais. Recentemente, também foi lançada nos EUA a 1ª Temporada da série “The Purge”, dirigida por Anthony Hemingway, sem previsão de lançamento no Brasil, em que cada episódio corresponde a uma noite, ou seja, a um ano diferente desse fatídico evento. O que, talvez, tenha gerado mais curiosidade no público desde o início é como tudo começou, como foi o planejamento e criação da noite de expurgo. É aí que entra “A Primeira Noite de Crime”, uma espécie de prequel da franquia que tira todas essas dúvidas dos fãs.

The First Purge

Com Gerard McMurray à frente da direção dessa vez e DeMonaco apenas no roteiro e produção executiva, o filme descreve como os Novos Pais Fundadores da América, o terceiro partido político dos EUA, chegaram ao poder e comandaram um experimento onde não há leis por 12 horas em Staten Island, Nova Iorque. Já prevendo certa hesitação, foram oferecidos 5.000 dólares aos moradores que permanecessem na ilha e participassem dessa noite de violência sem limites. Sob a capa de uma teoria sociológica que visa diminuir o índice de criminalidade pelo resto do ano, criada pela Dra. Updale (Marisa Tomei, mal aproveitada), o governo escolhe uma comunidade isolada, que sofre de pobreza, violência e tráfico de drogas, para o experimento que permite todo tipo de agressões e crimes por uma noite, oferecendo dinheiro à população que tanto precisa. Ao contrário dos longas anteriores mais dedutivos, a intenção de “The First Purge” (no original) é bem explícita: mostrar que o governo não se importa com a população, principalmente a mais pobre, composta por negros e imigrantes latinos, e quer exterminá-la a qualquer custo sem sujar as mãos. A imprevisibilidade humana, no entanto, acaba obrigando o chefe da operação Arlo Sabian (Patch Darragh) a interferir no evento para conseguir o resultado desejado e o suspense dá lugar à ação na tela, se perdendo do restante da franquia.

The First Purge

O personagem Dmitri (Y’lan Noel), maior traficante local, acaba assumindo praticamente a personalidade do Rambo a partir do segundo ato e “A Primeira Noite de Crime” se torna um filme de ação com muito tiro, facada e bomba, deixando o suspense apenas por conta de poucos jump scares. O ingresso do cineasta Michael Bay como produtor deve ter influenciado bastante neste ponto, bem como na utilização dos efeitos especiais. O trio principal composto por Noel, Lex Scott Davis e Joivan Wade até segura o filme, mas nenhum dos personagens do longa é muito carismático. A trama apresentada acaba sendo mais do mesmo em uma nova versão inferior do longa anterior, porém mais engajada politicamente, levantando uma discussão sobre o capitalismo desenfreado praticado pelo governo, a opressão aos marginalizados e o racismo tão presentes nos EUA.

The First Purge

A premissa da franquia sempre foi muito atrativa ao público e “A Primeira Noite de Crime” se encaixa na proposta, mas é o filme mais fraco entre os quatro. Parece que as ideias de DeMonaco para estender a franquia estão ficando perdidas pelo caminho e a direção de McMurray é pouco inspirada e peca pelo exagero, além de apresentar soluções um tanto forçadas e difíceis de engolir. O terror da vida real ainda é o mais assustador, assim como a possibilidade de algo tão bizarro tomar vida, e é nisso que “A Primeira Noite de Crime” se apoia. Um potencial mal aproveitado, mas que tem seu valor dentro da franquia.

 

A Primeira Noite de Crime (The First Purge)

EUA – 2018. 98 minutos.

Direção: Gerard McMurray

Com: Y’lan Noel, Lex Scott Davis, Joivan Wade, Rotimi Paul, Marisa Tomei e Patch Darragh.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 3