A Qualquer Custo

Estilo Clint Eastwood repaginado e revalorizado

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03 de fevereiro de 2017

“A Qualquer Custo” de David Mackenzie, que foi indicado ao Oscar 2017 e estreia esta quinta-feira, tem cara, cor e cheiro de Clint Eastwood, mas não é o tipo de filme que o famoso ator/cineasta anda interessado em realizar. O mais próximo que chegou com seus últimos exemplares foi “American Sniper”, com qual o filme “A Qualquer Custo” sintoniza a cartilha arenosa, rústica, no estilo terra de ninguém e sobrevivência do mais forte, e só. O fato é que estamos um pouco distantes da figura do ator da trilogia de “Por Um Punhado de Dólares” e do diretor de “Os Imperdoáveis” e “Gran Torino”, talvez pelo alvorecer do pathos e amadurecer do ethos em suas crônicas sociais. E é aí que David Mackenzie consegue se beneficiar em filmar seu “Hell or High Water”, no título original, como um bem-vindo anacronismo mais pungente do que se fosse feito há duas décadas atrás.

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Seguindo um fio condutor à la Robin Hood, sobre roubar os ricos para dar aos pobres, é melhor não se elucidar mais do que apenas dizer que dois irmãos (Chris Pine e Ben Foster, muito bem dirigidos) começam assaltos a banco por pequenas quantias de dinheiro aparentemente sem lógica, mas que farão todo o sentido mais tarde. Enquanto isso, desenvolve-se uma trama paralela com a dupla de policiais como espelho invertido desta caçada aos ladrões, criando uma ótima química entre o delegado bonachão interpretado por Jeff Bridges e seu parceiro descendente indígena na pele do ator Gil Birminghan, fazendo uma crônica irônica do lugar de fala dos personagens indígenas em filmes do gênero faroeste. O elenco como um todo tem um excelente rendimento com ótimos diálogos cortantes que põem em xeque os usos e costumes interioranos típicos do deserto do Texas americano, e do gênero faroeste como um todo, repaginado para as novas gerações.

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Com quatro indicações ao Oscar 2017, melhor filme, roteiro original, edição e ator coadjuvante para Jeff Bridges, há de se fazer um adendo sobre a política da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas que talvez não houvesse chegado até o filme se não fosse o selo de qualidade que o nome de Jeff Bridges anda prestando às produções em que se insere. Sim, o ator está excelente no papel do delegado, mas apenas com variações levemente criativas do estilo “John Wayne” que ele já estava imprimindo em suas personas desde a refilmagem de “Bravura Indômita” pelos irmãos Coen e o cantor country que interpretou no drama “Coração Louco”, com qual levou o Oscar de melhor ator. Este tipo de persona mais rústica e embrutecida por um tempo diferenciado e lentamente venenoso já existia, inclusive, na filmografia dos Coen, com o papel de Tommy Lee Jones em “Onde os Fracos Não Tem Vez” (adaptação do livro de Cormac McCarthy), e até Tarantino escalou Kurt Russell para interpretar uma cópia perfeita de Jeff Bridges em seu último filme “Os Oito Odiados”.

Apesar da cartilha de crueza narrativa atualizada com a pobreza que os bancos modernos descortinaram, em sintonia com a ganância retratada de forma literária perfeitamente por Cormac McCarthy no que viraria o filme “Onde os Fracos Não Têm Vez” nas mãos dos Coen, e apesar de alguns maneirismos de violência e ação estilosas que vão mais para o lado bufão do Tarantino rever suas homenagens aos westerns, ainda assim “A Qualquer Custo” contém bem mais da renovação da jornada do herói cansado e nada louvável estabelecido por Clint Eastwood. Os Coen jamais se preocuparam com um fio condutor redentor típico da jornada do herói cada vez mais transformado em anti-herói atualmente, pois os Coen querem é justamente desconstruir isso e ir na direção oposta. Eles querem a não-resolução, o sarcasmo com seus personagens sujos e sem redenção. Já “A Qualquer Custo” dá um bom salto adiante da Cartilha Clint, fazendo com que ambos os lados tenham carisma e identificação, sejam eles delegados ou sejam ladrões, e promete redenção (a)moral pros 2 lados, por sinal, mais uma inovação de continuidade à cartilha Clint. Todavia, nada disso é demérito, porque não está se botando na balança aqui re-reinventar o que Cormac já havia conseguido. Credita-se muito mais à direção de Mackenzie o bem sucedido equilíbrio de cartilhas revisitadas para algo novo, paradigmático e menos cético em relação à clara decadência de seus personagens.

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Talvez, se não fosse por essa radiografia dos westerns modernos, “A Qualquer Custo” não houvesse recebido o cartaz que merecia? Talvez não, até porque seu diretor é ainda pouco conhecido, mesmo com algumas pérolas independentes como “Sentidos do Amor” com  Ewan McGregor e Eva Green; e tampouco seu roteirista/ator Taylor Sheridan também já ganhou notoriedade suficiente para carregar o filmes nas costas, mesmo após a revelação de seu texto para o sucesso “Sicario – Terra de Ninguém” de Denis Villeneuve. Mas decerto o corpo de elenco do filme é destaque, bastante azeitado. Deve-se dar enorme destaque para Ben Foster como o irmão kamikase e que verdadeiramente merecia a indicação ao Oscar de coadjuvante, mesmo que Chris Pine também tenha rendido além de quaisquer expectativas. E tudo isso acompanhado de fortes coadjuvantes momentâneos e cruciais, que roubam a cena a cada dez minutos de projeção.

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Aliás, apesar de o próprio faroeste ser um gênero realizado de forma bastante masculina, mesmo que haja muitas mulheres fãs do estilo de filme, deve-se elogiar inúmeras participações especiais de atrizes que elevam a produção e ampliam o sarcasmo em cima da decadência do velho arquétipo do “mocinho e bandido”, mostrando que enquanto elas trabalham e carregam o peso do mundo nas costas, os homens estão brincando de ser tolos em brincadeiras mortais que pertencem mais ao velho oeste do que ao novo… A própria crônica institucional aos bancos opressores é uma crítica social à velha ordem, a um capitalismo selvagem que criou enormes disparidades de pobreza e murchou como modelo econômico mundial que anda seguindo uma terceira via mais equilibrada entre o Estado e a iniciativa privada, o social e o indivíduo. A revalorização desta dicotomia é que gera alguns dos melhores momentos, como o escárnio da funcionária do banco no início do filme aos próprios ladrões que a agrediram, numa ponta marcante da atriz Dale Dickey, que merecia mais papéis centrais como o que se destacou em “Inverno da Alma”. Ou a garçonete (Katy Mixon) que trata de forma humana e carinhosa um dos bandidos e recebe uma gorjeta milionária, precisando confrontar depois o delegado pelo seu direito de cidadã em reter tal gorjeta.
Sem falar na direção inspirada, especialmente no início, onde utiliza travellings giratórios para tratar de forma vertiginosa as escalas sociais propostas entre quem é vítima e quem é algoz numa linha tênue a ser ultrapassada. E, mais tardar na projeção, a técnica é vertida para intensificar as perseguições de carro, onde as diferenças sociais se intensificam: bandidos, policiais e até cidadãos texanos com porte de armas até os dentes que se vêem no direito de fazer justiça com as próprias mãos, para Trump nenhum botar defeito, para não dizer o contrário. O filme é irônico, sujo, e funciona para além dos arquétipos revistos não tão originais, porém bem trabalhados, sem subestimar a inteligência do espectador, e não deixando de apostar em doses de adrenalina nos momentos certos.
Para completar, a cena e diálogo finais do filme merecem ficar registrados na memória do espectador por dias a fio após a projeção acabar.