A Queda do Império Americano

Americano rende...risos

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11 de novembro de 2018

Que filme DELICIOSO é “A Queda do Império Americano” do canadense Denys Arcand. Ok, deliciosamente às vezes politicamente incorreto… Mas mesmo quando “erra” acaba acertando. — Mais uma exclusividade trazida pelo 20° Festival do Rio l Rio de Janeiro Int’l Film Festival.

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É estranho como fazemos tantas concessões para sobreviver. Como aceitamos viver sob uma teatralidade tácita de códigos e signos com os quais não concordamos, especialmente quando sabemos mais sobre eles, e ainda assim convivemos sem rejeitar ou contraditá-los. Por exemplo, todos sabemos o real significado da palavra “dinheiro”, um papel de valor atribuído socialmente ao custo de vidas humanas e disparidade entre os seres… E, ainda assim, todos precisam de dinheiro para sobreviver ou mesmo almejam ter muito dinheiro para viver melhor do que os outros. A mesma coisa com palavras como “propriedade”…”posse”…”autoridade” e etc… Quem validou estas palavras para que tivessem tanto poder material sobre os indivíduos que também possuem alma e espírito para avaliar estes mesmos valores para além de sua coisificação?!

Parte destes código e signos ganharam um status que muitas vezes é associado ao imaginário imposto pelo chamado “Imperialismo Americano”, a nação mais influente do século XX no mundo que tomou para si os ditames do “capitalismo selvagem”…

Neste momento, leitores poderiam interagir com este presente texto e servir de interlocutores ou consciência coletiva a se opor aos meus argumentos que este que vos escreve, vulgo eu, estaria sendo ingênuo… Que eu estaria confabulando ou filosofando demais com coisas que são muito mais inconscientemente práticas no dia-a-dia do que a teoria poderia conceber ou contestar. Afinal…, o que “filosofia” entende de “finanças”?…ou de “economia pública”? São séculos de condicionamento coletivo para engendrar essas regras estruturalmente no subconsciente para cogitar quebrá-las ou torcê-las a esta altura do campeonato.

Porém… isso não quer dizer que não possamos superar o seu efeito ao menos no indivíduo que ousar pensar para além destes códigos, ainda mais se for através de uma das catarses mais eficientes e antigas da história: rir da nossa própria desgraça.

E é isto o que o novo filme de Denys Arcand, o diretor de clássicos como “O Declínio do Império Americano” (1986) e “Invasões Bárbaras” (2003), consegue alcançar. Aliás, poderia parecer que este novíssimo “A Queda do Império Americano” seria a sequência ou a conclusão destes dois filmes citados acima, até pelo nome imponente e clarividente que ostenta, que vai além da queda dos Estados Unidos como território, mas sim como ideia! E, de certa forma, até que não deixa de ser uma continuação abstrata… Na verdade, este exemplar mais recente do cineasta, após alguns anos de hiatos e exemplares desapercebidos como “O Reino da Beleza” (2014) e “A Era da Inocência” (2007), continua sim o espírito contestador de suas duas obras-primas mais lembradas, só que desta vez com parte do mesmo elenco interpretando outros personagens e motivações, inclusive na mudança de linguagem e gêneros cinematográficos — Aqui se utilizando bem mais da comédia/paródia assumida e do arcabouço narrativo de um filme de assalto/golpe/extelionato.

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Sobre a trama, melhor não dizer mais nada, a não ser que o dinheiro de um assalto que dá errado vai parar na mão de um ingênuo PHD em filosofia que vai envolver muita gente em confusão e ainda vai tentar alcançar justiça social. Não que o prazer em rever o reencontro de certos artistas que regressam neste “A Queda do Império Americano” deixe de alcançar o mesmo prazer com o qual os receberíamos se estivessem interpretando os mesmos personagens (o que seria impossível, até porque “Invasões Bárbaras” tratava justamente da despedida de um deles). Mas o maior prazer está mesmo é no campo das ideias e desconstruções filosóficas que dão prosseguimento à crítica maior que os filmes anteriores também faziam. — Nem o romance que é inserido no meio da história estraga ou minimiza a diversão.

Quase dá uma sensação da trilogia “Antes do Amanhecer”, só que, diferente de acompanhar o passar das décadas do mesmo casal interpretado por Julie Delpy e Ethan Hawke na trilogia de Richard Linklater, aqui os atores de “O Declínio do Império Americano” e “Invasões Bábaras” estão interpretando outros personagens e o melhor é que cada um destes filmes virou um raio X dos momentos e lapsos temporais do que aconteceu no mundo (e EUA) entre as épocas de realização destas mesmas obras. Assim como na trilogia “Antes do Amanhecer”, dá vontade de ter mais a cada 10 anos só pra continuar a colocar a carcaça cadavérica morta-viva dos EUA em novas autópsias conforme os americanos expelem mais dejetos!

E, caso isso já não bastasse, o prólogo do filme ainda traz uma crônica que cai como uma luva para a situação política atual do Brasil — muitas gargalhadas e aplausos fortes com menos de dez minutos de filme por identificação imediata com palavras que poderiam ter se passado aqui, e poderia se migrar o nome “Trump” e “63 milhões de votos imbecilizados” dos EUA para o Brasil com um estalar de dedos.

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