A Rainha Nzinga Chegou

Viagem às origens afrobrasileiras

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24 de janeiro de 2019

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Foto da apresentação das diretoras Junia Torres e Isabel Casimira Gasparino e equipe do filme “A Rainha Nzinga Chegou”. Terceiro filme na competição principal de longas inéditos na Mostra Aurora em Tiradentes.

O filme fala sobre a tradição do Congado no Brasil e parte numa viagem para a África numa busca das raízes culturais em comum e de figuras míticas como a Rainha Nzinga nos respectivos costumes passados de geração em geração.

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Para se adentrar melhor no filme, no entanto, é incontornável falar primeiro sobre o filme secular “Abolição” de Zózimo Bulbul, no qual o saudoso cineasta abordava em caráter documental o quanto a verdadeira abolição da escravatura depende de se fincar e propagar raízes culturais sólidas na sociedade das bases de matrizes africanas. Sem isso, um povo não teria a base para poder se integrar numa sociedade que foi construída em cima do racismo estrutural.

E é exatemente isso o que faz “A Rainha Nzinga Chegou”, pois estrutura a base saudável para um referencial afirmativo e positivo de mulheres negras como figuras centrais da religiosidade e da hierarquia matriarcal. Apesar da linguagem de certo modo tradicional e linear, não como uma questão, e sim mais como declaração de estilo em meio à Mostra Aurora em Tiradentes que costuma ser permeada de experimentações mais arriscadas, é uma potência enorme ver um filme com elenco 100% negro. Nenhuma pessoa em cena é branca. E isto é reocupar um imaginário cinematográfico que até muito pouco tempo era supremacista branco como cânone imposto e excludente.

Neste momento, preciso trazer algo do extracampo expresso na fala introdutória das diretoras, que elogiam o diretor de fotografia que só pôde entrar no projeto a partir da segunda metade da obra — e nota-se isto claramente a partir do salto no tempo que divide a narrativa. Antes disso, os registros, inclusive, eram mais rústicos, seja no material ou nos ângulos, quase intencionalmente caseiros ou found footage, mas com a enorme vantagem de possuir o carisma gigante da mãe de uma das diretoras: Isabel Cassimira. Ela era a rainha do Congado que vai passar o bastão para a filha e gerar a viagem de busca pelas origens da tradição no continente africano (sendo a própria filha também personagem, além de assinar a direção junto com Junia Torres).

O carisma abundante da mãe nos conduz de início com leveza e humor engajadores, que vai se transformar em deferência a partir da segunda metade em que acompanhamos a viagem da filha já em formato digital de filmagem. A leveza ainda está lá, mas vai dar espaço a outro tipo de abordagem, um pouco mais sóbria, um pouco menos naturalista e mais investigativa em muito chão percorrido para sentir a terra e o mar do berço do mundo. Não deixa de ser bonito ver as pontes serem trilhadas e mapeadas em cada passo que leva o grande Brasil em suas crenças e tradições a uma história riquíssima por séculos de invisibilidade de nossas matrizes africanas que ora ganham o reconhecimento merecido.

Mas assim como a fotografia e o salto no tempo, o rendimento também oferece duas propostas completamente diferentes. Em primeiro lugar porque decerto o filme não precisa se preocupar com o tipo de público advindo da branquitude que não entenda ou desconheça o valor da oralidade nas tradições resistentes contra a colonialidade; ou mesmo nas camadas de significados das músicas e letras dos cânticos de fé que unem pessoas negras independente dos sistemas hegemônicos lhes negligenciar. A potência de se ver uma grande mulher negra à frente de manifestações culturais de toda uma comunidade fala muito mais alto do que esta crítica ou mesmo a mera competição na qual o filme se encontra jamais poderiam falar per si. É um elogio aparentemente simples e de linguagem tradicional, mas extremamente honesto e singelo, que irá tocar ainda mais plateias que compartilhem destas vivências, porém que ainda assim poderá encantar aqueles que desconhecerem tais costumes, contanto que estejam de coração aberto.