A Segunda Esposa

Trama inteligente que expõe os códigos narrativos através de insinuações e elipses que iludem as interpretações do espectador

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18 de março de 2016

“A Segunda Esposa” (“Kuma”) é o primeiro longa metragem do diretor austríaco Umut Dag (filho de imigrantes curdos) e foi o filme de abertura do Panorama do Festival de Berlim em 2012.

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Com roteiro de Petra Ladinigg o filme explora basicamente, sob o viés feminino, uma história familiar, repleta de segredos. Na verdade, este é o tipo de filme onde a história a ser contada é o que menos importa. A narrativa está muito mais concentrada em analisar a grande importância que a “família” (como instituição social) desempenha na sociedade muçulmana do que dramatizar as relações entre os personagens. As mulheres, apesar de submissas em determinados aspectos, representam a força motriz desta sociedade comandando o destino e lutando como verdadeiras leoas para defender suas crenças.

A estrutura deste filme é bem curiosa. Tudo aparenta ser algo que não é, e após acompanhar um casamento tradicional turco, na vila onde Ayse (Begüm Akkaya) nasceu, onde quase todos imaginavam que seria com Hasan (Murathan Muslu), descobrimos que tudo não passa de uma fachada para acobertar um acordo entre Fatma (a impressionante Nihal G. Koldas) e Mustafa (Vedat Erincin), casal muçulmano de meia idade, que decidem trazer a jovem para a Áustria e fazê-la de segunda esposa de Mustafa.

Logo no início, através de uma imagem borrada em um espelho embaçado, ouvimos alguém vomitando. Fatma aparenta estar amargurada, cansada e doente, mas mantém-se de pé e faz questão de ficar até o final do casamento. Pouco a pouco os personagens vão se definindo em uma trama inteligente que expõe os códigos narrativos através de insinuações e elipses que iludem as interpretações do espectador.

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O arco dramático lentamente vai sendo construído e expondo a real intenção do roteiro. As mulheres vão adquirindo, então, uma importância extraordinária e demonstrando uma força excepcional, enquanto os homens (para surpresa de todos) só existem como provedores funcionais e são exibidos como fracos e impotentes. Elas reagem, apanham e batem ao se descobrirem traídas, mas mantém uma atitude firme e uma fé inabalável em suas crenças. Por sua vez, a matriarca defende a manutenção de sua família com unhas e dentes e, mesmo sob condições adversas, não abre mão de uma postura inabalável.

Umut mostra a ebulição dos desejos por baixo dos hijabs (véus muçulmanos) e surpreende ao mostrar uma nudez feminina (ainda que muito breve) na sequência do banho. Sorrateiramente, o diretor movimenta a câmera pelos corredores do apartamento, exibindo através de reflexos e frestas de portas, os segredos de uma família que cujas revelações explodem em completa violência.

 

Apesar do tom melodramático (da metade para o final) o filme é uma grata surpresa por apresentar uma inusitada história de uma sociedade tão rígida.

 

Expectativa 2012 – Festival do Rio 2012

 

A Segunda Esposa (Kuma)

Áustria, 2011. 93 min.

Direção: Umut Dag

Com:  Nihal G. Koldas, Begüm Akkaya, Vedat Erincin, Murathan Muslu


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