A selva ultrarromântica de um Tarzan pop… e eficiente pacas

O 'reboot' das aventuras em carne e osso do herói criado por Edgar Rice Burroughs surpreende pela fotografia elegante e por um elenco azeitado, com um galã com olhos de ressaca

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02 de agosto de 2016

Samuel L. Jackson é o médico americano que ajuda o Homem Macaco (Alexander Skarsgård, ótimo) no longa de David Yates

Samuel L. Jackson é o médico americano que ajuda o Homem Macaco (Alexander Skarsgård, ótimo) no longa de David Yates: US$ 311 milhões nas bilheterias

RODRIGO FONSECA

Como sequela da gradual urbanização do audiovisual mais pipoca, na qual o passado se limita a um capa & espada padrão Peter Jackson ali e a um Game of Thrones acolá e, veeeeeeez ou outra, um faroestezinho, os filmes de aventura em floresta ou mata virgem tornaram-se aves raras, condenando o maior herói cinematográfico da Mãe Natureza (pré Capitão Planeta, claro!), Tarzan, à invisibilidade. Pouco se fala (ou se escreve, com seriedade) acerca da importância que o Homem-Macaco teve para a popularização do cinema ao longo dos anos 1930, com os filmes estrelados por Johnny Weissmuller (1904-1984) ostentando a tanga do personagem criado na literatura (e depois exportado para as HQs) por Edgar Rice Burroughs (1875-1950). Muito popular foi também a série deste vigilante ecológico protagonizada por Ron Ely, produzida pela Rede NBC entre 1966 e 1968, com episódios rodados no Brasil. Ficou mais a lembrança de sua versão desenho animado, lançado em 1999 pelos estúdios Disney, com canção de Phil Collins (You’ll Be In My Heart) laureada com o Oscar. Era um Tarzan teen, para menores, bem diferente desta atual encarnação que bomba nas bilheterias tendo um inspirado Alexander Skarsgård, emprestando seus olhos de ressaca ao papel-título.

Margot Robbie é a Jane mais pós-moderna do cinema

Margot Robbie é a Jane mais pós-moderna do cinema, ativa e autônoma

Dirigida por David Yates, uma cria da TV inglesa responsável por rentáveis episódios da franquia Harry Potter, a produção de US$ 180 milhões A Lenda de Tarzan parece um filme deslocado no tempo, apesar de seus efeitos especiais modernosos (alguns deles beeeeem canhestros, sobretudo os relacionados aos movimentos de gorilas digitais) e de seu ritmo de ação alinhado com os padrões histéricos da contemporaneidade. Com um refinamento plástico de saltar os olhos sobretudo na paleta de cores, bem azeitado na fotografia de Henry Braham (do delicioso A Fortuna de Ned), o longa-metragem dá um banho de formol nos códigos da aventura, temperando-os com uma carga épica que andava sumida das telonas há muitos anos. Talvez desde Indiana Jones e a Última Cruzada (1989) não se via uma imersão nas fronteiras do épico nos timbres do que se fazia nos seriados das décadas de 1930 e 40. E há uma dose de romance que andava banida das salas de exibição pelo menos desde o fracaso (injustiçado) de Austrália, de Baz Luhrmann, em 2008. Isso se deve à star quality inata (e ainda pouco explorada) de Skarsgård e do Diabo de saias chamado Margot Robbie, um caso vivo de abandono de lar que nos brinda com uma Jane memorável: aguerrida, destemida, autônoma, culta.

Christoph Waltz, um vilão de espectros imperialistas

Christoph Waltz rouba a cena (como sempre) como um vilão de espectros imperialistas

Se não bastasse o casal, temos Samuel L. Jackson e Christoph Waltz (este sempre iluminado) roubando cada cena como o vilão Leon Rom. Ambos entram em um roteiro mais inteligente do que a média das pipocas do ano, imbuído de diferentes camadas cronológicas, apostando num mito já refeito. Aqui, Tarzan é uma lenda de si mesmo: encontrado por Jane há tempos, ele já começa aculturado, de calça comprida, tendo a amargura pela perda de um filho, ainda na gravidez. A trama segue sua volta à África para cumprir uma missão que envolve EUA e Inglaterra acerca do jugo belga sobre o Congo, envolvendo escravidão e a exploração de diamantes. Rom é o imperialista que vai arrastar o justiceiro dos cipós de volta ao lar onde foi criado, numa jornada cheia de perigos e de reviravoltas. Jackson é o aliado americano – divertido, nunca caricato.

Tarzan The Legend Stelan

Este mote dramatúrgico é deixa para que Yates faça uma cisão simbólica da África, tendo sua porção paradisíaca de um lado (o do congraçamento entre povos) e sua metade oprimida do outro, numa crítica feroz ao Imperialismo. Esta é a medida de transcendência de um filme de eficiências, cuja bilheteria arranhou US$ 311 milhões.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 4