A Última Criança

Diretor estreante sul-coreano entrega um drama denso que convida público a exercitar a empatia

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07 de novembro de 2018

Via de regra, o cinema sul-coreano gosta de chocar o espectador e confrontá-lo com situações para ele até então inimagináveis, que o fazem se colocar no lugar das personagens e passar um bom tempo pensando “o que eu faria se fosse comigo?”. Shin Dong-Seok estreia no roteiro e direção de “A Última Criança”, drama que coloca o espectador num lugar bastante desconfortável, enquanto o convida a treinar a empatia. Um casal dono de uma loja de interiores luta para superar a morte do filho, Eunchan, que morreu seis meses antes ao salvar um amigo de afogamento. Um dia, o pai avista o menino que sobreviveu, Kihyun, sendo intimidado por um grupo de colegas da escola e decide ajudar, passando a ensiná-lo o seu ofício, enquanto sua esposa demora mais a se abrir para o garoto, mas acaba amolecendo com o tempo. Os três logo se entrosam e começam a parecer uma família, até que a culpa atrapalha.

A câmera detalhista de Dong-Seok capta olhares, expressões e gestos mais do que palavras, como é comum em longas orientais – pouco se fala, mas muito se sente. Dá para sentir do outro lado da tela as cargas emocionais pesadas que o trio protagonista carrega nas costas. Há algo de errado no ar e Dong-Seok deixa pistas durante todo o filme, até a revelação no terceiro ato, que poderia ser mais surpreendente, porém é satisfatória. O copo do pai que estava quase cheio, finalmente transborda e inunda o chão junto com as lágrimas recorrentes da mãe: um luto que antes era vivido de maneiras diferentes encontra um caminho comum para então, junto, se perder no desespero.

Os dois plot twists nos minutos finais da trama são dignos de um bom filme sul-coreano, daqueles que deixam o público sem palavras por um bom tempo após a projeção. “A Última Criança” é um complexo exercício de empatia em que o menino Kihyun é a peça-chave. Chegar ao final da trilha da verdade não é fácil, principalmente quando você carrega as pedras tão pesadas da culpa, da dor e da injustiça por todo o percurso, mas o caminho da mentira é ainda mais tortuoso e torturante. Não há final feliz, mas há consciência sendo limpa e pedras densas caindo pouco a pouco para tentar tornar a jornada menos dolorosa e opressiva. Ótima estreia de Shin Dong-Seok.

 

Festival do Rio 2018 – Expectativa 2018

A Última Criança (Last Child)

Coreia do Sul – 2018. 124 minutos.

Direção: Shin Dong-Seok

Com: Choi Moo-Seong, Kim Yeo-Jin e Seong Yu-Bin.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4