A Viagem de Yoani

por

21 de abril de 2015

No dia 17 de dezembro de 2014, uma quarta-feira, Estados Unidos e Cuba anunciaram o primeiro passo de uma reconciliação diplomática, pondo fim a uma inimizade que durou mais de cinco décadas. O aperto de mão histórico foi comentado pela blogueira cubana Yoani Sánchez no Twitter. “Uma era termina”, disse Sánchez que completou sua assertiva com o desejo de que “esta nova (era) que começa tenha a sociedade civil como protagonista”. Benefício limitadíssimo em Cuba, acessar a internet exige manobras que envolvem até mesmo ofertas do mercado negro. No entanto, essa ainda foi a plataforma mais abrangente encontrada por Yoani, que inclusive montou seu próprio computador, para relatar suas experiências como cidadã cubana, sob o jugo da ditadura ‘castrista’. Deste modo, nasce o blog “Geração Y”, uma janela aberta de resistência para o resto do mundo.

O documentário “A Viagem de Yoani”, de Peppe Siffredi e Raphael Bottino, é de fato fruto do rompimento de uma barreira de cerceamento de liberdade. A vinda de Yoani ao Brasil em 2013, primeiro país visitado após 20 pedidos negados de viagem ao exterior em um período de cinco anos, tornou-se possível devido à reforma migratória cubana. A partir de então, os cidadãos podem sair do país somente com o passaporte em mãos, sem autorização formal do governo. Essa não é a primeira vez que a blogueira participa de um filme que tem a reivindicação ao direito pela liberdade de expressão como força motriz. Dado Galvão botou antes a boca no trombone com o documentário “Conexão Cuba-Honduras”, do qual a jornalista cubana também participou. A Galvão ela também agradece, independentemente do afrouxamento migratório de seu país, a oportunidade de aterrissar em terras brasileiras.

Yoani5Registro da passagem de Yoani pelo Brasil para o lançamento do livro de sua autoria “De Cuba, Com Carinho” e do longa “Conexão Cuba-Honduras”, incluindo o polêmico acesso da jornalista à Câmara dos Deputados, o filme deixa bem claro que a histeria, nesse caso pró-Fidel, é totalmente capaz de abafar o real sentido da liberdade de expressão. Ao contrapor os gritos de revolta de manifestantes a favor do regime cubano ao silêncio de Yoani Sánchez, uma incapacidade de diálogo inevitável diante do fanatismo descontrolado, o filme deixa bem claro que a ‘demonização’ da jornalista tem motivo: a desmistificação. Sua missão é fazer ruir uma Cuba idealizada, paradisíaca na concepção daqueles que mantém a figura de Che Guevara no peito, um símbolo transmudado em clichê de subversão. Na seleção de imagens dos documentaristas, não dá pra negar o estereótipo que se apodera do repúdio a ela destinado. Fala-se em pacto com os ianques e até “xô Big Mac”. O contexto do acordo inesperado de Barack Obama e Raúl Castro amplia o significado dessas dissonâncias nada pacíficas. No entanto, o livre protesto é visto com admiração pelo alvo de todos os ataques, quem dera esse embate fosse possível em sua nação, um lugar que insistem em tornar unilateral, espremendo-o em um partido e/ou na figura de um homem. Cuba, o lar para o qual retorna, é muito mais complexo do que isso, ela reitera. A proposta de Yoani Sánchez aos que comparam a ilha ao paraíso é simples, bem ao estilo vá, veja e sinta. Aí sim, o choque de realidade pode ser capaz de despertar os adormecidos pela utopia.


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/almanaquevirtual/www/wp-content/themes/almanaque/single.php on line 52