A Vingança Está na Moda

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21 de maio de 2016

O traje de a “Vingança Está na Moda”, adaptação do romance de Rosalie Ham, não é tão refinado como o estilo de sua personagem principal, a designer de moda Myrtle ‘Tilly’ Dunnage, interpretada por Kate Winslet. As vestes do filme são compostas por tecidos de uma comédia leve e descompromissada, ideais para o entretenimento imediato do espectador. O diferencial mesmo surge quando o corpo do filme se despe, deixando aparentes os criativos alicerces do roteiro que invertem os códigos do gênero western. Jocelyn Moorhouse dirige um longa que faz da mulher (Winslet, requintada por natureza) uma pistoleira obstinada, cuja arma de fogo é a agulha e a linha, objetos que a fazem superior em um pedacinho de terra esquecido no mapa: uma cidade rural australiana ambientada na década de 1950.

‘Tilly’ Dunnage, com um passado sombrio na bagagem, envolvendo o bullying da qual foi vítima e até um possível assassinato, é um peixe fora d’água quando retorna a sua cidade natal. Trajada de acordo com a haute couture e com o nariz devidamente em pé, ela usa seu talento, e a experiência adquirida no exterior, para obter a vingança contra aqueles que a hostilizaram na infância. Graças às habilidades de ‘Tilly’, Gertrude Pratt (Sarah Snook), moça sem graça e solteirona, vira um deleite para olhos masculinos, um feito que atrai outras mulheres da cidade para a armadilha fashion da estilista. No ritmo da máquina de costura funcionando a todo o vapor, “A Vingança Está na Moda” faz uso de pecados capitais como argamassa da desforra ― o retorno da moça, visivelmente evoluída, provoca inveja enquanto as roupas, idealizadas de bom grado para as conterrâneas, fomentam a cobiça. Vulneráveis, elas tornam-se dependentes da novidade. Entre as conquistas de ‘Tilly’, está a paixão do rapaz mais bonitão das redondezas, o viril e romântico Teddy McSwiney (Liam Hemsworth), que faz de tudo para fisgar o coração da deslumbrante recém-chegada.

Se algumas passagens do filme são previsíveis ou mesmo baseadas em chavões, quando o assunto é o gênero, “A Vingança Está na Moda” demonstra uma bipolaridade que surpreende e de quebra livra o longa do lugar-comum. Sem qualquer aviso para o espectador, o filme transita da comédia ao drama (sem recusar o melodrama) em acontecimentos que até provocam um estranhamento, mas são certamente eficazes para deixar ainda mais poderosa a volta por cima de ‘Tilly’. Um dos maiores desafios do cinema comercial é o desprezo por padrões que deixam aquela sensação desconfortável de que tudo é igual na essência, mesmo que a roupagem seja diferente. Nesse ponto, ao aliar a ousada imprevisibilidade com uma estrutura popular de roteiro, “A Vingança Está na Moda” é sem dúvida um destaque.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 3